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Caleidoscópio O MUNDO DE HEITOR VILLA-LOBOS - 'O ÍNDIO DE CASACA'

Argumentos de Óperas, Obra


Mefistófeles

Ópera em quatro atos, um prólogo e um epílogo

LibretoArrigo Boito

EstreiaMilão no ano de 1868

AmtecedentesSegundo reza a lenda, o Dr. Johann Faust foi um intelectual do século XVI. Culto e viajado, atribui-se a Fausto uma série de façanhas mágicas. Dele, diz-se que vendeu a alma ao diabo para assim obter a juventude eterna, conhecimento e poder. Acrescenta-se ainda ter morrido em circunstâncias misteriosas. A verdade é que a sua existência deu origem a toda uma série de lendas, canções folclóricas e até as mais sofisticadas obras de poetas, dramaturgos, filósofos e compositores.

A primeira versão conhecida desta lenda apareceu inserida no Volksbuch (1587) de Johann Spiess, a qual resultou na peça de Christopher Marlowe, A Trágica História de Doutor Fausto (1589). Esses trabalhos caracterizavam Fausto como um patife, punido com justiça à condenação eterna.

Durante o Iluminismo, o filósofo, dramaturgo e crítico alemão, Gotthold Ephraïm Lessing, percebeu em Fausto o símbolo da busca heróica do homem pelo conhecimento e poder, e, portanto, merecedor de louvor e salvação.

A interpretação de Lessing da lenda de Fausto, provocou uma resposta do gigante literário do século XVIII, Johann Wolfgang von Goethe. Durante o curso de 50 anos, Goethe criou um poema épico em duas partes denominado Fausto, no qual explorou a necessária coexistência do bem e do mal. Foi esta obra que acabou por inspirar a maioria dos trabalhos musicais focalizados no conto de Fausto.

Da ópera de Ignaz Walter, estreada em Bremen no ano de 1787 à História do Doutor Johann Faust de Alfred Schnittke, estreada em 1995, foram muitos os compositores que se dedicaram a este mito: Ludwig Spohr, Franz Schubert, Berlioz, Gounod, Carl Loewe, Wagner, Schumann, Liszt, Mahler, Busoni, Henri Pousseur, Wolfgang Rihm e Giacomo Manzoni, este último já baseado no Doutor Fausto de Thomas Mann.

Contudo, foi na Itália do século XIX que nasceu a mais abrangente de todas as obras músico-dramáticas baseadas no texto de Goethe: Mefistofeles, ópera de Arrigo Boito com libreto de sua própria autoria foi estreada em Milão no ano de 1868. Na altura com 26 anos, Boito apresentava-se como um agitador idealista. Mefistófeles rompia com muitas convenções da ópera e ofendia violentamente o público na sua primeira noite.

Ao contrário do que acontece nas obras de outros românticos como Berlioz e Gounod, que fazem a ópera girar em torno do eternamente indagador Dr. Fausto, Boito centra-se na figura de um brilhante, irritável e cruel Mefistófeles. Além disso, o libreto inclui duas cenas do Segundo Fausto, assim como o Prólogo no Céu da Primeira parte da obra de Goethe. Boito mantém no libreto os diálogos mais importantes de Fausto e Mefistófeles para a definição destas personagens e para o aprofundamento da temática de Goethe nos planos filosófico e teológico.

Musicalmente Mefistofeles é um dos mais fascinantes exemplos de ópera romântica italiana e que, em alguns compassos, suporta o confronto com as melhores páginas de Verdi. 

Resumo

Nas vastas regiões do paraíso flutuam multidões de anjos, querubins e serafins. As suas vozes elevam-se num hino de louvor ao Supremo Rei do universo. Eis que no final do hino, surge Mefistófeles. Ele parodia os cantos de louvor e anuncia ao Ser Eterno que a sua criação, a humanidade, se afundou tão profundamente que já nem precisa de incitar o homem para o pecado.

O Ser Eterno, através de trombetas e um coro celestial, pergunta se ele conhece Fausto. Mefistófeles responde que realmente conhece Fausto, e que o homem é particularmente estranho. Ele desafia o Rei do Universo para uma aposta. Mefistófeles diz ser capaz de destruir a alma de Fausto. O Ser Eterno não concorda e aceita assim entrar no jogo.

A cena termina com mais um louvor das vozes celestiais, ridicularizado pelo assobio de Mefistófeles. A tudo isto sobrepõe-se um grande Salve Regina.


Primeiro Acto:

É domingo de Páscoa e a cidade de Frankfurt encontra-se cheia de gente. O respeitável Dr. Fausto e seu estudante Wagner observam à distância a festa de boas-vindas à primavera. Quando saem da cidade são seguidos por um monge vestido de cinzento e cuja presença provoca um certo desconforto em Fausto.

Fausto retira-se para seu laboratório, seguido pelo monge, que se esconde de Fausto num quarto. Quando Fausto começa a ler um volume sagrado, o monge assusta-o. Fausto faz um sinal religioso que força o monge a livrar-se de seu manto e a aparecer vestido como um cavaleiro.

É Mefistófeles! Mefistófeles propõe um acordo a Fausto, no qual, durante um certo tempo, ele concederá seus serviços a Fausto. O preço: Fausto deve servir Mefistófeles no inferno por toda a eternidade. Fausto aceita o contrato com o Demónio, mas insiste que a sua vida termine somente quando ele estiver suficientemente satisfeito.

Mefistófeles anuncia-lhe uma viajem á volta do mundo. Ele abre seu manto, envolve Fausto, e ambos partem a voar.


O Segundo Acto começa no Jardim de uma donzela chamada Margarida:

Fausto é agora jovem e belo. Está encantado com a beleza de Margarida e apresenta-se como Enriço. Enquanto Mefistófeles distrai a viúva Marta, amiga de Margarida, Fausto aproveita para lhe fazer a corte.

Os dois casais passeiam e conversam. Fausto faz de tudo para seduzir Margarida e Mefistófeles acaba por conseguir o interesse de Marta. O objectivo é convencer Margarida a dar à sua mãe uma poção sonífera inofensiva para que assim Fausto e Margarida possam ter uma noite de amor.

Acabada a cena, Mefistófeles conduz Fausto através das alturas para o Vale de Schirk onde as bruxas estão reunidas para celebrar a noite de Sabá. Quando lá chegam, Mefistófeles é entronizado mestre das criaturas da noite. O vilão começa a contar o seu plano para destruir o mundo. As bruxas trazem-lhe uma representação da terra que ele simbolicamente destrói.

Subitamente Fausto tem uma visão onde Margarida aparece com uma corda de sangue à volta do pescoço. Mefistófeles tenta distraí-lo, enquanto a frenética orgia chega ao clímax.

No terceiro acto assistimos ao tormento e à salvação de Margarida.

A mãe de Margarida morreu. Aparentemente, a poção que Fausto tinha dado a Margarida para que a sua mãe dormisse enquanto faziam amor não era assim tão inofensiva.

Margarida foi condenada pela morte de sua mãe e pelo assassinato do seu filho.

Surge Fausto. Ele vem para convencer Margarida a viajar com ele para uma ilha distante. No início ela mostra-se optimista, mas ao reconhecer em Mefistófeles o Diabo diz preferir encarar a sua execução. Margarida rejeita Fausto com desgosto, e morre, rezando pelo perdão divino. Mefistófeles amaldiçoa-a, mas os coros celestiais intervêm, anunciando sua salvação. Fausto e Mefistófeles escapam quando os guardas e os executores chegam.
O quarto acto passa-se agora na Grécia Antiga. Estamos no mundo de Helena de Tróia.

Embora desolado, Fausto pediu a Mefistófeles que o levasse até à Grécia Antiga para testemunhar um Sabá clássico.

Mal chegam, Fausto é conquistado pela beleza da cena.

Enquanto Mefistófeles confessa preferir a orgia organizada pelas bruxas, chega Helena. A rainha, centro de todo aquele cenário, faz entrar com ela uma série de escravas cuja função é cantar e dançar. Começa a festa. Contudo, Helena tem uma premonição. Ela prevê a Queda de Tróia. Fausto entra, ajoelha-se a seus pés e declara-lhe o seu ideal de beleza e pureza. Ela esquece rapidamente a sua visão e junta-se a Fausto para jurar o seu amor. Os dois são levados através das sombras para uma noite de encantamento.