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Argumentos de Óperas, Obra


A Carreira dum Libertino

6ª ópera (69 anos)

Libreto: Auden e Kallman (Stravinsky e Craft)

PersonagensTom Rakewell - tenor
Nick Shadow - barítono
Trulove - baixo
Anne, filha de Trulove - soprano
Mother Goose - meio-soprano
O Turco Baba - meio-soprano
Sellem - tenor
Guarda do Manicómio - baixo

AntecedentesStravinsky escreveu apenas 6 óperas, 5 das quais foram levadas a cena em Paris entre 1914 e 1934. A última foi escrita nos Estados Unidos, alguns anos depois da 2ª guerra mundial, e teve a sua estreia em Veneza, no Teatro La Fenice, no dia 11 de Setembro de 1951.
É precisamente esta ópera "americana" que vamos transmitir esta noite directamente do Covent Garden, em Londres.
A ideia para escrever "The Rake's Progress" - traduzido como "A Carreira dum Libertino" - nasceu durante uma visita do compositor a uma exposição do pintor Hogarth no Art Institute de Chicago no dia 2 de Maio de 1947. Aquela sequência de quadros surgiu aos seus olhos como cenas dum drama, sugerindo-lhe o tema para uma ópera em Língua Inglesa - projecto em que pensava desde a sua chegada aos Estados Unidos havia 8 anos.
O escritor Aldous Huxley, seu vizinho na Califórnia, indicou-lhe Auden como libretista, e Auden, por sua vez, chamou Kallman como colaborador.
O libreto foi sendo gradualmente entregue a Stravinsky entre Janeiro e Março de 48, tendo o compositor iniciado o seu trabalho em Maio com a "ajuda" do maestro Robert Craft. Essa "ajuda" de Craft consistia apenas em ler o texto em voz alta para que o compositor pudesse sentir o seu ritmo, mas Stravinsky fez sempre questão de referir este tipo de colaborações que considerava fundamentais.
"A Carreira dum Libertino" é uma das raras obras de Stravinsky escrita sem ser por encomenda. Assim Nicolas Nabokov, um amigo do compositor, funcionou como seu agente tendo conseguido "vendê-la" ao "Festival de Música Contemporânea de Veneza", que, por indicação de Stravinsky, contratou para a interpretar o Coro e a Orquestra do Scala. Como maestro Stravinsky começou por escolher Igor Markevitch - que foi rejeitado pela organização. A 2ª escolha recaiu sobre Ferdinand Leitner - sendo no entanto a estreia dirigida pelo compositor. "A Carreira dum Libertino" foi, portanto, levada pela 1ª vez a cena em Veneza, no Teatro La Fenice, 4 anos e meio depois da já referida visita de Stravinsky à exposição de pintura de Hogarth no Art Institute de Chicago, mais precisamente no dia 11 de Setembro de 1951.

1.º Acto1º Quadro - O jardim da casa de campo de Truelove numa tarde de Primavera
Tom e Anne celebram a Primavera com o seu amor enquanto Truelove, pai de Anne, roga aos céus para que as suas desconfianças acerca de Tom sejam infundadas. Depois de mandar a filha para a cozinha, Truelove propõe a Tom um emprego numa empresa dum amigo. Como Tom recuse, Truelove avisa-o de que nunca irá permitir que Anne se case com um preguiçoso.
Quando fica só Tom começa a resmungar dizendo que não foi feito para viver atrás dum balcão, e reafirma a sua fé na Sorte. Invoca então o Dinheiro e Nick Shadow materializa-se instantaneamente na sua frente dizendo-lhe que chame Truelove e a filha para lhes comunicar que um tio distante acabou de morrer e lhe deixou uma fortuna - o que provoca as reacções mais variadas. Então Tom contrata Shadow como seu conselheiro, e aceita a sua ideia de se estabelecer em Londres antes de casar.
Os noivos despedem-se, e, antes de partir, Tom promete a Truelove que em breve os mandará chamar para irem juntar-se a ele em Londres. Quanto a Nick recebe de Tom a promessa de que será pago dentro de um ano e um dia.
O quadro termina com uma revelação feita por Nick Shadow ao público: ele não é apenas o alter-ego de Tom mas o próprio Diabo em pessoa.

2º Quadro - O bordel de Mother Goose em Londres
Shadow e Mother Goose catequizam Tom no caminho do cinismo. Quando falam de amor ele inquieta-se, e faz tenção de fugir. Mas Shadow sossega-o atrasando o relógio para que ele pense ter ainda muito tempo. Tom bebe. Nick apresenta-o, e as prostitutas ficam desconcertadas com a sua ingenuidade - que curiosamente as atrai. Mas Mother Goose reclama-o para si.
O quadro termina num ambiente de sonho, enquanto Shadow declara que mal os sonhos terminem Rake morrerá.

3º Quadro - O jardim da casa de campo de Truelove
Anna recusa-se a aceitar que o silêncio de Tom queira dizer rejeição, e invoca a noite e a Lua como suas aliadas. Depois conclui que o silêncio de Tom significa que ele precisa de ajuda, e decide deixar a casa do pai e ir para Londres ao seu encontro.


2.º Acto
1º Quadro - Uma saleta na casa de Tom numa praça de Londres
Rake está desapontado com a sua decadência citadina, e anseia pelas simples alegrias do campo que deixou. Pronuncia então o segundo desejo: ser feliz. Shadow aparece trazendo um panfleto que anuncia o espectáculo de Baba the Turk na feira de Saint Giles. Propõe então a Tom que case com ela para se libertar dos apetites e dos constrangimentos, alcançando assim a Felicidade. Com uma imensa gargalhada Tom diz compreender e concordar.

2º Quadro - A rua em frente da casa de Tom
Anna espera apreensiva o regresso de Tom. Vê chegar um cortejo de lacaios transportando toda a espécie de embrulhos. Depois chega uma carruagem de onde Tom se apeia. Ao deparar com Anna fica embaraçado. Diz-lhe que não a merece e pede-lhe que parta. Do interior da carruagem surge a cabeça de Baba coberta de véus. Ela está impaciente. Para surpresa de Anna Tom diz ter-se casado. Anna parte, e Tom conduz Baba para casa explicando-lhe que Anna era uma jovem para com quem ele tinha uma dívida. Os passantes reconhecem Baba e aclamam-na. Em reconhecimento dos aplausos, ela tira os véus revelando publicamente a sua verdadeira personalidade: ela é Baba the Turk... a mulher barbuda da feira de Saint Giles.

3º Quadro - Uma saleta na casa de Tom repleta agora dos mais variados objectos
Tom e Baba tomam o pequeno-almoço. Baba não pára de falar, e Tom está acabrunhado. A mulher barbuda tenta acarinha-lo, mas ele repele-a. Baba enfurece-se e começa a partir tudo o que encontra pela frente. Só pára quando Tom lhe cobre o rosto com a sua própria peruca. Exausto, Tom acaba por adormecer no sofá. É então que Shadow regressa com uma máquina que diz ser miraculosa. Para provar os poderes da sua máquina, introduz nela uma caneca de barro que sai... transformada em pão. Depois explica ao público que não passa dum truque, e que a máquina não faz milagres. Tom acorda formulando o terceiro desejo: que através duma máquina milagrosa que viu em sonhos ele possa fazer um grande bem à Humanidade para voltar a merecer Anna. Ao ver a máquina de Shadow, exulta: ela é igualzinha à máquina com que sonhou. Enquanto isso, Shadow volta a dirigir-se ao público troçando da ingenuidade de Tom, a quem diz que aquela máquina deve ser produzida industrialmente, e posta no mercado. Os dois saem para realizar esse grandioso empreendimento enquanto Tom informa Shadow que se quer ver livre da mulher.


3.º Acto
1º Quadro - Uma saleta na casa de Tom com os objectos cobertos de teias de aranha e de pó
O grandioso empreendimento de Tom revelou-se um grandioso desastre económico. É por isso que todos os seus pertences vão agora ser postos em hasta pública. O Leiloeiro entra seguido duma pequena multidão, na qual se encontra Anna sempre em busca do seu amado. O leilão é executado no meio de grande exaltação. A última peça é aquilo a que o Leiloeiro chama um objecto desconhecido. Ao retirar a peruca que o cobre... surge Baba que retoma de imediato o seu ataque de fúria do ponto onde o interrompera. Ao ver Anna diz-lhe para ir ter com Tom, pois ele ainda a ama. Anna sai, esperançosa, e o quadro termina com a digníssima saída de Baba que grita para os presentes: "Da próxima vez que quiserem ver a mulher barbuda vão ter de pagar bilhete!"

2º Quadro - Um cemitério numa noite sem estrelas
Passou um ano e um dia desde que Tom contratou Shadow, que revela agora a sua verdadeira identidade. Com a última badalada da meia-noite Tom deverá pagar os seus serviços entregando-lhe a alma. Tom reclama, mas a sua cova já está aberta. Shadow oferece-lhe apenas uma escolha: a forma como efectuará o suicídio. À nona badalada Shadow recua um pouco propondo um jogo de cartas: ele escolherá 3 cartas e Tom deverá adivinhar quais são.
Apesar de Shadow fazer batota, Tom adivinha todas as cartas. Assim, com a última badalada, é Shadow, e não Tom, quem cai na cova. Só que, num gesto desesperado, Shadow leva consigo a sanidade mental de Tom - que passa a julgar ser... Adonis.

3º Quadro - Um manicómio
Por entre os risos dos outros doentes mentais, Tom diz ser Adonis e estar prestes a casar com Venus. Anna chega com um enfermeiro, e Tom toma-a por Venus a quem pede perdão. Anna comove-se e embala-o, até que o pai lhe diz estar na hora de partir. Depois de Anna sair, Tom acorda, procura Venus que não encontra, acabando por morrer de desgosto.


RDP - Transmissões em "Noite de Ópera" desde 1996

Sábado, 1 de Dezembro de 2001 - Opera Nacional Inglesa
Enredo resumido da autoria de Margarida Lisboa.