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A comédia transfigura-se em drama

50 longas-metragens — aos 83 anos, Woody Allen prossegue uma obra notável em que, regularmente, obsessivamente, a sua cidade natal é cenário de eleição. Assim volta a acontecer em "Um Dia de Chuva em Nova Iorque".

A comédia transfigura-se em drama
Jude Law, Elle Fanning e Liev Schreiber — o cinema dentro do cinema, o drama a partir da comédia
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 A comédia transfigura-se em drama
Um Dia de Chuva em Nova Iorque A nova comédia romântica de Woody Allen, conta a história de um jovem casal universitário, Gatsby (Timothée Chalamet) e Ashleigh (Elle Fanning), que vêm frustrados os seus planos para um fim de semana romântico em Nova Iorque com a mesma rapidez com que um dia solarengo se transforma num dia chuvoso. Quando Ashleigh tem de fazer um trabalho para a faculdade e viaja até Manhattan para ...

Quando vemos, agora, Timothée Chalamet e Elle Fanning a protagonizar o novo e prodigioso filme de Woody Allen, "Um Dia de Chuva em Nova Iorque", talvez seja inevitável lembrar um vector específico da sua obra, nem sempre dos mais comentados. A saber: a importância crescente das personagens mais jovens, sobretudo jovens adultos, nas suas histórias.

Para nos ficarmos apenas por duas dessas personagens, recordemos as presenças de Mariel Hemingway em "Manhattan" (1979) e Leonardo DiCaprio em "Celebridades" (1998). O cliché manda dizer que a sua juventude envolve uma celebração feliz de um tempo (ainda) exterior às atribulações do mundo adulto... Mas o cliché engana-se: a ternura com que Woody Allen encena tais personagens não exclui um profundo desencanto — a comédia transfigura-se em drama.

Assim volta a acontecer com Chalamet e Fanning. Interpretando um par de namorados que se desloca a Manhattan (para um trabalho universitário, ela tem agendada uma entrevista com um conhecido realizador de cinema), a sua odisseia tem qualquer coisa de clássica comédia romântica... Ao mesmo tempo, a teia de acidentes existenciais e incidentes emocionais que se vai gerando instala uma perturbante verdade: afinal, aquelas personagens protagonizam a metódica desagregação de muitas crenças que sustentavam o seu universo pessoal.

Tudo isto, enfim, acontece através de um realismo infinitamente ambíguo, aliás devidamente sublinhado pela notável direcção fotográfica de Vittorio Storaro (que já assinara as imagens de "Café Society" e "Roda Gigante", respectivamente em 2016 e 2017). Woody Allen volta a filmar a sua Nova Iorque como o cenário de todos os paradoxos: o encanto dos lugares acolhe as grandezas dos humanos, expondo também as suas misérias.

Não será preciso sublinhar que este cinema de desarmante simplicidade (entenda-se: de uma mise en scène cuja complexidade recusa qualquer modo de ostentação) continua a ligar-se a uma maravilhosa colecção de actores. Para lá dos já citados Chalamet e Fanning, recordemos as participações de Selena Gomez, Jude Law, Diego Luna, Cherry Jones e Liev Schreiber. Este, em particular, consegue representar a personagem do cineasta como um ser de bizarra simbologia fantasmática, à deriva no interior da sua própria história — não é o caso de Woody Allen, assinando aqui a sua 50ª longa-metragem.

Crítica de João Lopes
publicado 19:23 - 24 outubro '19

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