Estreias  

A linha da vida e da morte

O cinema do americano Paul Thomas Anderson continua a fascinar-nos: "Linha Fantasma" é um prodigioso objecto de cinema, centrando-se no par formado por um criador de moda e a sua musa.

A linha da vida e da morte
Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps — um filme sobre os limites da experiência humana
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 A linha da vida e da morte
Linha Fantasma Com o glamour da cidade de Londres do pós-guerra como pano de fundo, o renomeado costureiro Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) e a sua irmã Cyril (Lesley Manville) estão no centro da moda britânica, vestindo realeza, estrelas de cinema, herdeiras, socialites e damas com o distinto estilo d’A Casa de Woodcock. As mulheres entram e saem da vida de Reynolds, providenciando-lhe inspiração e ...

O cinema do século XXI tem sido asfixiado por esse imaginário, pobre e preconceituoso, segundo o qual os filmes se medem pelos efeitos "especiais" e pelo ruído das bandas sonoras... Daí que um dos grandes desafios, de uma só vez ético e estético, da actualidade seja a possibilidade de devolver ao cinema a sua dimensão mais essencial, a dimensão humana.

"Linha Fantasma" [título original: "Phantom Thread"] é um filme para revalorizarmos essa dimensão. Desde logo, a partir dos seus extraordinários actores: o genial Daniel Day-Lewis, naquele que poderá ser o seu derradeiro trabalho cinematográfico, interpreta um criador da alta costura de Londres, na década de 1950; Vicky Krieps, extraordinária revelação, é a sua mulher e musa.

A relação que se estabelece entre os dois está, toda ela, marcada pelo facto de a mulher surgir como o elemento essencial à configuração das criações dele — vesti-la com os seus vestidos é, no fundo, reinventá-la. Ao mesmo tempo, tudo se passa como se nesse processo de exaltação da beleza, a vida se aproximasse demasiado da pontuação definitiva da morte — criar é também conhecer os nossos limites.

Paul Thomas Anderson é o cineasta desse ziguezague entre a pulsão de vida e a nitidez da morte. E bastará lembrar o seu filme mais popular — "Magnolia" (1999) — para percebermos que se trata de uma obsessão, de uma só vez, formal e filosófica. Anderson é, afinal, um criador que encena personagens tão exuberantes e tão frágeis que acabam por experimentar um desejo utópico que ameaça reduzir-se a nada.

Num certo sentido, este é um cinema de retorno a alguns parâmetros psicológicos (a palavra talvez seja equívoca) do cinema clássico — podemos até admitir que Anderson não ficará chocado se o considerarmos um herdeiro de mestres como George Cukor (1899-1983) ou Vincente Minnelli (1903-1986). Em todo o caso, não há nele nada de imitação ou cópia. Temos mesmo a sensação de estarmos a assistir ao nascimento de uma linguagem capaz de nos expor o mais belo paradoxo, aquele que se estabelece entre a luz que emana das personagens e o assombramento que define a sua solidão.

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* A banda sonora original de "Linha Fantasma" foi composta por Jonny Greenwood (Radiohead); este é o tema "House of Woodcock" (Woodcock é o apelido da personagem de Daniel Day-Lewis).

Crítica de João Lopes actualizado às 03:35 - 02 fevereiro '18
publicado 03:24 - 02 fevereiro '18

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