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A metáfora dos "mortos andantes"

Foi o filme de abertura do Festival de Cannes e deixou um amargo efeito de desilusão: Jim Jarmusch bem se esforça por transformar "Os Mortos Não Morrem" num filme consistente, mas falta-lhe um genuíno trabalho de argumento.

A metáfora dos mortos andantes
Iggy Pop em pose de "walking dead" — um zombie viciado em cafeína...
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 A metáfora dos mortos andantes
Os Mortos Não Morrem Na tranquila e pequena cidade de Centerville, passa-se algo de muito errado. A lua paira larga e baixa no céu, as horas de claridade estão a torna-se imprevisíveis, e os animais começam a exibir comportamentos fora do normal. Ninguém sabe bem porquê. As notícias são assustadoras e os cientistas mostram-se preocupados. Mas ninguém prevê as mais estranhas e perigosas consequências que em breve vão ...

Infelizmente, não há muito a dizer da nova realização de Jim Jarmusch. "Os Mortos Não Morrem", porventura correspondendo a um certo efeito de moda associado à série televisiva "The Walking Dead", revisita a tradição das histórias de zombies, neste caso para encenar uma típica cidadezinha americana assolada pelos "mortos andantes" como metáfora de uma América descrente dos seus próprios valores...

Não falta sequer uma alusão anedótica a Donald Trump e a presença emblemática de alguns figuras convidadas (guest stars) com evidente vocação para a caricatura: é o caso de Tom Waits e Iggy Pop (sobretudo este, compondo um zombie viciado em... cafeína!). 

O elenco é, aliás, liderado por actores com provas dadas, inclusive na filmografia de Jarmusch: Adam Driver, Bill Murray e Chloë Sevigny (Driver, recorde-se, protagonizou "Paterson", lançado em 2016). O certo é que o realizador parece ter ficado satisfeito com uma mera colecção de "gags" que, a certa altura, repetindo-se sem grande imaginação, denunciam a falha central — um argumento minimamente consistente — de que o filme padece.

Claro que "Os Mortos Não Morrem" é um objecto que continua a reflectir uma fundamental vocação de Jarmusch. A saber: o gosto pela revisitação das convenções de determinados géneros (por exemplo, "Dead Man/Homem Morto", em 1995, visava as leis clássicas do "western"), explorando a sua decomposição dramática e, no limite, a sua irrisão simbólico. Nesse aspecto, o saldo mais positivo deste projecto será a canção "The Dead Don't Die", encomendada por Jarmusch a Sturgill Simpson, figura prestigiada do mundo da música "country".

Crítica de João Lopes actualizado às 23:30 - 20 junho '19
publicado 23:25 - 20 junho '19

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