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As palavras e o seu picante

Reforçando o seu gosto por um cinema que insiste em discutir o modo como conhecemos o mundo à nossa volta, Edgar Pêra dialoga com o escritor Alberto Pimenta para redescobrir e celebrar a energia primordial das palavras.

As palavras e o seu picante
Alberto Pimenta filmado por Edgar Pêra — descrever o mundo é reinventá-lo
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Edgar Pêra é um cineasta — entenda-se: um criador de imagens e sons — que gosta de discutir, ora com gravidade, ora com ironia, os poderes de comunicação das palavras. Tal gosto manifesta-se, por exemplo, no título do seu "O Homem Pykante - Diálogos com Pimenta".

Pimenta porque se trata, de facto, de dar a conhecer uma série de diálogos com o poeta, escritor, ensaísta e professor universitário Alberto Pimenta. O certo é que tal objectividade na identificação da pessoa retratada se transfigura através da associação do seu apelido à palavra picante, para mais (re)escrita com um festivo "y".


Não estamos, assim, perante um documentário pertencente ao modelo tradicional "artes & letras". O que aqui acontece não decorre da vontade de fazer um retrato descritivo. Ou melhor: trata-se de recusar as ilusões deterministas das matrizes televisivas dominantes neste tipo de filmes, celebrando um acontecimento visceral — qualquer descrição é reinvenção.

Daí que "O Homem Pykante" aposte em formas de cumplicidade formal com a obra de Alberto Pimenta, em particular com os seus poemas, utilizando o ecrã e a banda sonora como lugares de descoberta da energia mais secreta, ou menos aplicada, das palavras. Este é, por isso, um filme que nos recorda que, para além dos dispositivos de investigação a que possamos recorrer, conhecemos sempre o mundo através das palavras que convocamos — eis uma saudável pedagogia, não isenta de humor.

Crítica de João Lopes
publicado 00:28 - 25 março '19

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