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Cenas da luta de classes

No panorama da produção francesa, Stéphane Brizé é um dos realizadores que não desiste de explorar os temas e formas de um cinema atento às convulsões sociais e laborais — "Em Guerra" é mais um exemplo da sua postura artística e narrativa.

Cenas da luta de classes
Vincent Lindon volta a estar no centro de um "filme político" de Stéphane Brizé
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 Cenas da luta de classes
Em Guerra Apesar dos duros sacrifícios financeiros por parte dos trabalhadores e dos elevados lucros do ano anterior, a administração da Perrin Industries decide fechar uma das suas fábricas. Liderados por Laurent Amédéo, o seu porta-voz, os 1100 trabalhadores, decidem lutar contra esta decisão brutal, prontos a tudo para salvar os seus empregos.
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Na década de 1970, na Europa, assistiu-se a uma interessante proliferação de "filmes políticos", em grande parte ligada às componentes sociais das cinematografias francesa e italiana. No contexto português, tal fenómeno foi também vivido em articulação com as convulsões sociais e laborais do pós-25 de Abril.

Como é óbvio, os filmes dessa época são indissociáveis das peculiaridades dos contextos políticos em que foram gerados. O certo é que, sobretudo na produção francesa, persiste uma "tradição" do género de que um cineasta como Stéphane Brizé pode ser apontado como símbolo exemplar — lembremos o seu "A Lei do Mercado", com Vincent Lindon (premiado em Cannes/2015), agora de alguma maneira prolongado por "Em Guerra", de novo com o mesmo actor.

Brizé é um cineasta de uma ancestral temática cuja simples designação enfraqueceu face ao ecumenismo promovido pelos automatismos das (chamadas) redes sociais — ele filma as relações humanas enquanto sinais da luta de classes. A guerra deste filme é, afinal, o confronto entre patrões e empregados: os primeiros querem encerrar uma fábrica, os segundos consideram que a fábrica é viável... 

Infelizmente, apesar de tentar colocar em cena o modo como a situação é tratada na aceleração das notícias televisivas, "Em Guerra" acaba por ceder à ilusão de velocidade dessas mesmas notícias. Brizé parece mais empenhado em gerar uma sensação de agitação visual do que aceder à complexidade dos conflitos que coloca em jogo. Ou então, como acontece com as referências à vida familiar da personagem de Lindon (porta-voz dos trabalhadores), limita-se a explorar um psicologismo de débil consistência dramática.

Fica, em todo o caso, o enraizamento de "Em Guerra" num cinema que, maior ou menor felicidade narrativa, não quer desistir de olhar o mundo à sua volta. Em boa verdade, o triunfo dos super-heróis que não pertencem a nenhum lugar exige que voltemos a falar de seres humanos — e pensar, cinematograficamente, o que isso implica.

Crítica de João Lopes
publicado 23:19 - 03 novembro '18

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