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Evocando a herança de Ingmar Bergman

Foi um dos títulos com que o Festival de Cannes assinalou o centenário do nascimento do mestre sueco: "Ingmar Bergman - A Vida e Obra do Génio" tem assinatura da cineasta alemã Margarethe von Trotta.

Evocando a herança de Ingmar Bergman
Liv Ullmann e Margarethe von Trotta — conversando sobre Ingmar Bergman
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O centenário de Ingmar Bergman (1918-2007) tem suscitado abordagens muito diversas, nomeadamente no domínio documental. "Ingmar Bergman - A Vida e Obra do Génio", realizado pela cineasta alemã Margarethe von Trotta, reflecte esse movimento e o seu valor, antes do mais, pedagógico [título internacional: "Searching for Ingmar Bergman"]. Foi, aliás, um dos filmes com que a secção de Clássicos do Festival de Cannes assinalou a efeméride.

Estamos perante um objecto a meio caminho entre a abordagem biográfica e a construção de um ponto de vista subjectivo. Isto porque von Trotta, autora de filmes marcantes de todo um período de renovação da produção alemã — incluindo "A Honra Perdida de Katharina Blum" (1975) e "Anos de Chumbo" (1981) —, apresenta o seu trabalho a partir de uma perspectiva dialéctica: trata-se de evocar Bergman, mas também as influências que dele recebeu.
 

Convenhamos que a perspectiva "pessoalizada" não ajuda o filme. Não basta, de facto, ir filmar, por exemplo, à praia onde foi rodada uma cena vital de "O Sétimo Selo" (1957) para explicar como a visão de Bergman contaminou os filmes de von Trotta... Não é, entenda-se, um excesso que poderíamos aproximar da vaidade; bem pelo contrário, tal paralelismo soa a pouco: se se tratava de estabelecer ligações temáticas ou formais, seria necessário fazer um documentário mais explícito e detalhado sobre tais ligações.

Seja como for, importa não escamotear a pluralidade do retrato (cinema, teatro, escrita) e o valor de alguns testemunhos que o filme integra. O destaque vai para as palavras de Liv Ullmann e Olivier Assayas: ela, como rosto fundamental da iconografia bergmaniana, recordando a visão do mestre, o seu modo de trabalhar e também as singularidades do seu comportamento; ele propondo uma revisitação dos tempos da Nova Vaga francesa e do modo como os respectivos autores se assumiram como discípulos de Bergman. Em resumo, importa ver (e rever) os filmes de Bergman para além de qualquer lugar-comum museológico.

Crítica de João Lopes actualizado às 15:43 - 05 outubro '18
publicado 15:35 - 05 outubro '18

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