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Memórias da América da década de 60

Através da relação de duas personagens verídicas, "Green Book" evoca o racismo na sociedade americana do começo da década de 1960 — o filme realizado por Peter Farrelly tem um lugar de destaque na corrida aos Oscars.

Memórias da América da década de 60
"Green Book": Mahershala Ali interpreta o pianista Don Shirley
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 Memórias da América da década de 60
Green Book - Um Guia Para a Vida Quando Frank Anthony Vallelonga, também conhecido como Tony Lip (Mortensen), um segurança de Nova Iorque de um bairro italo-americano de The Bronx, é contratado para conduzir e proteger o Dr. Don Shirley (Ali), um pianista negro de renome mundial, pela tournée de concertos desde Manhattan até ao Sul, eles têm que confiar no guia de viagem The Green Book que lhes oferece opções seguras de estadia, ...

O filme "Green Book" chega às salas portuguesas com um subtítulo ("Um Guia para a Vida"), sem que tenha sido traduzido o título original. Eis uma opção correcta, tendo em conta que não estamos perante um "livro verde", mas sim um guia criado por Victor Hugo Green com um objectivo muito concreto: editado entre 1936 e 1966, o Green Book destinava-se a informar os afro-americanos sobre os hotéis e motéis em que podiam hospedar-se sem se exporem às agressões dos racistas brancos.

Realizado por Peter Farrelly, o filme inspira-se nas memórias de duas personagens verídicas: o pianista negro Don Shirley (1927-2013) e o seu motorista branco Tony Lip (1930-2013), durante uma digressão através do Sul dos EUA, no começo da década de 1960. As manifestações de racismo que vão encontrando pelo caminho, para além da sua inscrição no tecido social, envolvem um desafio a ambos os homens — até que ponto cada um deles conhece o outro?

A maior virtude do filme é o seu tom ambivalente, algures entre a constatação realista e a distanciação irónica — aquilo que os americanos gostam de designar pela expressão comedy-drama. No limite, os sucessos e impasses que Shirley e Lip vão protagonizando favorecem uma mútua revelação. Na verdade, qualquer um deles dependia de uma percepção simplista em que o outro surgia apenas como elemento de um "grupo".

"Green Book" é um dos nomeados para o Oscar de melhor filme de 2018, estando ainda citado em mais quatro categorias, sendo duas de representação: Viggo Mortensen (actor) e Mahershala Ali (actor secundário), são candidatos como intérpretes de Lip e Shirley. Afinal de contas, na sua visão crítica das relações humanas, este é um filme de (re)valorização do trabalho dos actores — em tempos de muitas formatações digitais, eis um programa criativo que importa louvar.
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* Sons de Don Shirley, pianista de formação clássica com um lugar importante na história do jazz: esta é a sua versão de "Bridge over Troubled Water" (Simon & Garfunkel), editada numa antologia de 1972.

Crítica de João Lopes
publicado 20:20 - 24 janeiro '19

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