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Na ausência de David Bowie...

"Stardust" propõe-se organizar uma memória de David Bowie nos tempos heróicos da invenção da personagem de Ziggy Stardust... Mas como fazê-lo sem poder utilizar as canções do próprio Bowie?...

Na ausência de David Bowie...
Johnny Flynn interpretando David Bowie: cantor competente, filme à deriva
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 Na ausência de David Bowie...
Stardust - O Nascer de Uma Estrela "Stardust" irá acompanhar cronologicamente a primeira tournée nos E.U.A. do jovem David Bowie corria o ano de 1971. Depois de várias desilusões, rejeições, dúvidas e a lidar com os seus próprios demónios internos, esta foi a viagem que inspirou a invenção do seu icónico alter-ego - Ziggy Stardust e lançou para o mundo o artista que o mundo das artes para sempre idolatrará.

Registe-se: Johnny Flynn, músico britânico nascido em 1983 na África do Sul, é um interessante "revivalista" da tradição folk, atento a possíveis derivações rock, com uma carreira já definida por uma sólida discografia.

Resta saber o que ele faz, ou poderia fazer, num filme em que assume nada mais nada menos que a personagem de David Bowie (1947-2016), no início dos anos 70, quando começa a nascer a sua encarnação como Ziggy Stardust...

O filme chama-se "Stardust" (subtítulo português: "O Nascer de uma Estrela") e, tal como refere o respectivo cartaz, trata-se de retratar "David antes de Bowie". Sem dúvida, mas sendo uma das componentes centrais da narrativa o discreto impacto dos primeiros trabalhos editados de Bowie (em particular na sua digressão por palcos ultra-secundários dos EUA), como fazer esse retrato... sem as canções de Bowie?

Assim é: os gestores do património do criador de "Heroes" não cederam os direitos de utilização das suas canções e o filme mais não consegue do que encenar Flynn a cantar Jacques Brel ou The Yardbirds (bastante bem, por sinal)... O resultado é uma abordagem de Bowie que tenta "compensar" tais limitações com um pesado maniqueísmo psicológico, em particular na abordagem das relações com a esquizofrenia do seu meio irmão.

Resultado: "Stardust" é um objecto à deriva. E não apenas pelas dificuldades referidas, sobretudo porque não há ponto de vista minimamente consistente para lidar com a herança de Bowie. Nestes casos, costuma dizer-se que se espera, pelo menos, que o filme contribua para que os não conhecedores se interessem pelas canções do biografado... Mas como?

Crítica de João Lopes
publicado 18:07 - 03 julho '21

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