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Na encruzilhada da política e da moral

O caso Watergate volta a ser tema cinematográfico num filme que, de modo didáctico, evoca o papel central de Mark Felt, alto funcionário do FBI, no seu desenvolvimento — Liam Neeson interpreta Felt, sob a direcção de Peter Landesman.

Na encruzilhada da política e da moral
Liam Neeson interpreta Mark Felt — memórias do caso Watergate
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O filme "Mark Felt - O Homem que Derrubou a Casa Branca" vem inscrever-se numa curiosa genealogia do cinema de Hollywood. Em jogo está a conhecimento da presidência de Richard Nixon, desembocando inevitavelmente no caso Watergate e na investigação jornalística conduzida por Bob Woodward e Carl Bernstein, do jornal "The Washington Post" — foi, aliás, na sequência dessa investigação que Nixon acabaria por terminar o seu mandato, a 9 de Agosto de 1974.

O novo filme define-se, antes do mais, através de um óbvio parentesco com o clássico "Os Homens do Presidente" (1976), de Alan J. Pakula, centrado no trabalho de Woodward e Bernstein (interpretados por Robert Redford e Dustin Hoffman, respectivamente): aí seguíamos a trajectória dos dois jornalistas e, em particular, a sua obtenção de informações através de um alto funcionário do FBI, obviamente anónimo, designado como "Garganta Funda" — ele era, justamente, Mark Felt, alto funcionário do FBI.


Além do mais, "Mark Felt - O Homem que Derrubou a Casa Branca" remete-nos para as convulsões específicas do jornalismo e, concretamente, para os mecanismos de procura e tratamento de uma informação que se quer verdadeira e fundamentada. Nesta perspectiva, estamos também perante um parente próximo do recente "The Post", de Steven Spielberg — neste caso, evoca-se a divulgação dos documentos secretos "Pentagon Papers", também por "The Washington Post", num processo que acontece nas vésperas da eclosão do escândalo Watergate.

O filme escrito e realizado por Peter Landesman possui essa sensibilidade clássica, tipicamente liberal, que se traduz na capacidade de encenar uma crise transversal — de uma só vez política, moral e simbólica — a partir de uma irredutível experiência individual. Para Mark Felt tratava-se, de facto, de encontrar o equilíbrio possível entre os compromissos inerentes às suas funções no FBI e o direito dos cidadãos americanos a conhecer as manobras e mentiras da administração Nixon. Além do mais, no papel de Felt, é bom encontrar um Liam Neeson distante dos clichés "policiais" em que tantas vezes se enreda...

Crítica de João Lopes
publicado 19:39 - 01 março '18

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