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O Oeste americano revisto por um francês

O francês Jacques Audiard envolveu-se num empreendimento tão paradoxal quanto feliz: "Os Irmãos Sisters" recupera temas e símbolos das aventuras do Oeste americano, em particular dos "westerns" críticos dos anos 60/70.

O Oeste americano revisto por um francês
Jake Gyllenhaal, Joaquin Phoenix, John C. Reilly e Riz Ahmed — memórias do velho Oeste
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 O Oeste americano revisto por um francês
Os Irmãos Sisters Dois irmãos, Charlie e Eli Sisters, vivem num mundo selvagem e hostil e têm sangue nas suas mãos: sangue de criminosos e inocentes. Não têm quaisquer escrúpulos em matar, é esse o seu trabalho. Charlie (Joaquin Phoenix), o irmão mais novo, aprecia o que faz e vive sem quaisquer remorsos. Eli (John C. Reilly), no entanto, sonha viver uma vida normal. São contratados para encontrar e matar um ...

Como definir "Os Irmãos Sisters"? Talvez celebrando o seu contagiante pendor irónico. Começando pelo mais óbvio: a história destes irmãos do velho Oeste que aceitam "encomendas" para matar pessoas é também o retrato de dois homens relativizados pelo seu apelido Sisters (=irmãs) — eis os irmãos que são irmãs...

Mas há outra ironia, sem dúvida desconcertante e inesperada. Acontece que este objecto visceralmente americano — pelas referências históricas, a iconografia e o apelo mitológico — tem assinatura de Jacques Audiard, autor de títulos bem diferentes como "De Tanto Bater o Meu Coração Parou" (2005), "Um Profeta" (2009) ou "Dheepan" (Palma de Ouro em Cannes/2015). Ou seja: um francês!

Enfim, o menos que se pode dizer é que Audiard, contornando qualquer hipótese banalmente mimética, se coloca na posição de um verdadeiro cinéfilo, procurando encontrar as linhas perdidas de um certo "western" de espírito crítico que marcou, em particular, as décadas de 60/70. E lembramo-nos de clássicos como "A Quadrilha Selvagem" (1969), de Sam Peckinpah, ou "O Pequeno Grande Homem" (1970), de Arthur Penn.

Aqui encontramos os sinais de uma gigantesca convulsão histórica: uma violência enredada com as lendas da expansão para Oeste, as atribulações das cidadezinhas de madeira a nascer no meio de zonas mais ou menos desérticas, enfim, as tensões de um espaço e um tempo em que a noção de heroísmo era um produto ideológico, não necessariamente uma componente das relações entre os homens.

Sempre muito rigoroso na direcção dos seus actores, Audiard tem à sua disposição um elenco de invulgar consistência, incluindo John C. Reilly e Joaquin Phoenix (os irmãos), Jake Gyllenhaal e Riz Ahmed. Sem esquecer o director de fotografia Benoît Debie e o compositor Alexandre Desplat, mais dois europeus (respectivamente, belga e francês) a contribuir para esta aventura made in USA.

Crítica de João Lopes
publicado 00:53 - 21 fevereiro '19

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