Estreias  

O cinema entre Deus e os homens

Paul Schrader, argumentista de "Taxi Driver" e realizador de "American Gigolo", regressa com um filme magnífico: "No Coração da Escuridão" é uma viagem fascinante através das paisagens da fé e seus assombramentos.

O cinema entre Deus e os homens
Ethan Hawke e Amanda Seyfried — o cinema de Paul Schrader é uma demanda interior
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 O cinema entre Deus e os homens
No Coração da Escuridão Um ex-capelão militar, de luto pela morte do filho que convencera a ingressar no exército, começa a questionar a sua fé em relação a Deus e à sociedade. Toller, interpretado por Ethan Hawke é um homem atormentado por demónios pessoais e sentimentos de culpa pela morte do filho e também pelo divórcio que se seguiu. Os seus dilemas pessoais ganham uma nova dimensão, quando confrontado com as ...

O título original do novo filme de Paul Schrader, "First Reformed", é a designação de uma igreja protestante — um do seus sacerdotes, de uma pequena comunidade do estado de Nova Iorque, vai viver alguns momentos dramáticos em que desafia os limites da sua própria fé, ao mesmo tempo que descobre que um dos frequentadores da sua igreja pode estar a preparar um acto terrorista...

Perante tal resumo, podemos ser levados a supor que estamos perante um policial mais ou menos agitado, daqueles em que a acumulação de provas vai permitindo avançar num mistério mais ou menos inquietante... Num certo sentido, assim acontece. Com uma diferença que está longe de ser banal: o que Schrader filma é o mistério da própria fé — terá sido esse mistério que se quis condensar no pouco feliz título português, "No Coração da Escuridão".

A relação do sacerdote (Ethan Hawke, por certo numa das composições mais desafiantes da sua carreira) com o suspeito e, sobretudo, a sua mulher (Amanda Seyfried), desenvolve-se, assim, como uma viagem tanto mais perturbante quanto a dimensão muito física das suas peripécias envolve uma interioridade povoada de medos, silêncios e interrogações de difícil resposta.

Uma vez mais, Schrader distingue-se pela metódica austeridade da sua mise en scène, num labor de exploração das regiões mais ocultas da dimensão humana que recusa qualquer especulação gratuita em torno das emoções e, por maioria de razão, qualquer efeito visual (ou sonoro) de banal redundância — este é, de facto, um filme cristalino sobre as relações humanas, a sua bênção ou o seu assombramento pelos gestos divinos.

Assistimos, enfim, ao relançamento — e, num certo sentido, à reinvenção — dos temas da solidão e da redenção que Schrader já explorara noutros filmes magníficos como "American Gigolo" (1980), "O Rapto de Patty Hearst" (1988) ou "Auto Focus" (2002). Isto sem esquecermos a sua ligação aos filmes de Martin Scorsese, "Taxi Driver" (1976), "Touro Enraivecido" (1980) ou "A Última Tentação de Cristo" (1988) — foi Schrader que escreveu os argumentos de todos eles...

Crítica de João Lopes
publicado 23:57 - 13 julho '18

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