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O punk maior que a vida

Grande estreia de Verão: "Her Smell - A Música nas Veias" apresenta o retrato íntimo de uma estrela rock, superando todos os clichés do género. Na personagem central, Elisabeth Moss domina tudo e todos.

O punk maior que a vida
Elisabeth Moss na personagem de Becky Something — quem falou em Oscars?...
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O subtítulo português — "A Música na Veias" — talvez tenha algo de simplista e redundante. Em qualquer caso, não deixa de rimar com o carácter visceral do original, "Her Smell" (à letra: 'O cheiro dela'). Estamos, de facto, perante uma saga vivida com sangue, suor e lágrimas (se é que podemos arriscar tão óbvia apropriação de uma frase mítica). Enfim, digamos para simplificar que Becky Something, uma cantora punk em processo de acelerada decomposição emocional, é uma daquelas personagens realmente maior que a vida.

Escusado será dizer que o filme não seria o que é não fosse a admirável composição de Becky por Elisabeth Moss. Os seus trabalhos mais conhecidos, especialmente nas séries televisivas "Mad Men" e "A História de uma Serva", estão longe de sugerir todos os estados de alma — aliás, vibrações do corpo — que aqui encontramos. Moss a caminho de uma nomeação para o Oscar?...
 

Escrito e realizado por Alex Ross Perry, "Her Smell" terá sido, de alguma maneira, inspirado em episódios mais convulsivos da vida de Courtney Love... Talvez. É essa, pelo menos, a convicção de alguma imprensa americana. Em qualquer caso, as suas singularidades decorrem da capacidade de começar por um cliché ("estrela-de-rock-decadente") para criar uma teia de situações trabalhadas através de uma sofisticada teatralidade — o filme tem apenas cinco cenas e vive, antes de tudo o mais, da densidade da sua inesperada e perturbante duração.

Pensando em "Assim Nasce uma Estrela", será que estamos a assistir a um crescente envolvimento do drama psicológico com as matérias musicais? Não creio. Mas também não me parece que essa seja uma questão vital. O que mais conta é o retorno a um registo dramático que não abdica da irredutibilidade das suas personagens e, por isso mesmo, do talento dos seus actores. Elisabeth Moss e Alex Ross Perry acreditam, afinal, no relançamento da mais nobre tradição narrativa de Hollywood.

Crítica de João Lopes
publicado 16:12 - 12 julho '19

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