Estreias  

O realismo segundo Clint Eastwood

"15:17 Destino Paris" evoca um ataque terrorista ocorrido em 2015, no interior de um comboio que ligava Amsterdão a Paris — para Clint Eastwood, trata-se de reafirmar a energia de um olhar realista sobre a condição humana.

O realismo segundo Clint Eastwood
"15:17 Destino Paris" — evocando um episódio terrorista ocorrido no Verão de 2015
Crítica de
Subscrição das suas críticas
145
Trailer/Cartaz/Sinopse:
 O realismo segundo Clint Eastwood
15:17 Destino Paris Realizado por Clint Eastwood, “15:17 Destino Paris”, conta a história verídica de três homens que se transformaram em heróis com um ato de coragem. Ao início da tarde de 21 de Agosto de 2015, o mundo assistiu em silêncio enquanto os meios de comunicação relatavam um ataque terrorista frustrado, ocorrido no comboio Thalys #9364 com destino a Paris. Um ataque evitado por três corajosos jovens ...

O novo filme de Clint Eastwood, "15:17 Destino Paris", envolve uma aposta figurativa e dramática que, justificadamente, tem sido sublinhada em todas as notícias. Tratava-se, recorde-se, de abordar o modo como três soldados americanos em férias na Europa impediram um acto terrorista num comboio que ligava Amsterdão a Paris — pois bem, para interpretar essas três fundamentais personagens, Eastwood convidou... os próprios soldados.

Aconteceu a 21 de Agosto de 2015. Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos, na altura com 22-23 de idade, rumaram a Paris no Thalys, comboio rápido com partida de Amsterdão às 15h 17m. Quando um homem fortemente armado se preparava para disparar sobre os passageiros, os três reagiram rapidamente, conseguindo impedir o consumar das suas intenções.

Em boa verdade, trata-se de um efeito realista que o filme não sublinha enquanto tal. Não há, aqui, redundâncias formalistas. Aquilo que Eastwood procura é, de uma só vez, menos imediato e mais subtil. De modo sugestivo, "15:17 Destino Paris" poderá definir-se como a ilustração de uma conjuntura com o seu quê de hitchcockiano — como dizia o mestre do suspense, estamos perante figuras ordinárias numa situação extraordinária.

Daí, sem dúvida, a depuração clássica do filme, privilegiando os contrastes de uma acção que vai desde o tédio dos três soldados em vários momentos da sua deambulação turística até à violência que irrompe nos breves minutos de confronto com o terrorista — sem esquecer, claro, as fundamentais sequências em flashback dedicadas à infância de Stone, Sadler e Skarlatos.

Mais uma vez, Eastwood afirma-se, assim, como um voz singular, singularmente individualista, no interior da grande máquina de Hollywood. Rejeitando as ilusões, e também as rotinas, geradas pela ideologia dos "efeitos especiais", ele mantém-se atento à complexidade das personagens e à irredutibilidade dos gestos humanos. Pouco protegido no seu lançamento (o filme não foi previamente mostrado à comunicação social) "15:17 Destino Paris" é cinema em estado puro, alheio a modas temáticas ou clichés espectaculares.

Crítica de João Lopes
publicado 15:33 - 18 fevereiro '18

Recomendamos: Veja mais Críticas de João Lopes