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Solidão africana

O cinema português volta a lidar com memórias dos tempos coloniais: "Yvone Kane", de Margarida Cardoso, protagonizado por Beatriz Batarda e Irene Ravache, é um filme brilhante sobre a dificuldade de lidar com essas memórias.

Solidão africana
Beatriz Batarda no filme de Margarida Cardoso: revisitando memórias do tempo colonial
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 Solidão africana
Yvone Kane Depois da morte da sua filha, Rita volta ao país africano onde viveu a sua infância para investigar um mistério do passado: a verdade sobre a morte de Yvone Kane, uma ex-guerrilheira e ativista política. Nesse país, onde o progresso se constrói sobre as ruínas de um passado violento, Rita reencontra a sua velha mãe, Sara, um mulher dura e solitária que vive ali há muitos anos. E enquanto Sara ...

Mantemos uma relação ambígua com o passado colonial português: por um lado, sabemos que a sua memória está, algures, no labirinto da história, dos seus factos e imaginações; por outro lado, sentimos, mesmo se não o sabemos explicar, que tal memória existe em défice, como se tivéssemos medo ou pudor de dela nos aproximarmos.

Sustentado por um elenco de invulgar equilíbrio e subtileza, o novo e magnífico filme de Margarida Cardoso, "Yvone Kane", nasce dessa ambiguidade, projectando-nos num país africano, abstracto, mas em tudo e por tudo marcado pela história colonial portuguesa (até porque é um país onde se fala português). Não é uma evocação de factos precisos, antes uma teia de acontecimentos em que, a certa altura, o que realmente acontece tem tanto de palpável como de indecifrável.

Há uma sugestão de enigma policial: Rita (Beatriz Batarda) é uma mulher que se empenha em descobrir o que se passou com Yvone Kane, militante muito activa do processo de independência daquele país; ao empreender a sua viagem, vai encontrar-se com a sua própria mãe, Sara (Irene Ravache), que ali ficou, vivendo um processo de apagamento emocional que ora parece voluntário, ora inexorável.

Em última instância, "Yvone Kane" expõe o modo como Rita e Sara, face à herança enigmática de Yvone, se confrontam com a resistência da própria memória — como se, ao mergulharem no passado, corressem o risco de perder as razões da sua identidade. O filme de Margarida Cardoso é sobre isso mesmo: a vontade de apropriação de uma herança histórica e, ao mesmo tempo, a consciência desencantada de que há coisas que já não voltam e que, num certo sentido, se perderam para sempre. Em resumo: uma galeria de solidões encenada como um exercício metódico de revelação.

Crítica de João Lopes
publicado 22:29 - 27 fevereiro '15

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