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Teatralidade & confessionalismo

Figura maior da música brasileira, Elza Soares surge no centro do filme "My Name Is Now", realizado por Elizabete Martins Campos: uma celebração do espectáculo e um auto-retrato recheado de emoções.

Teatralidade & confessionalismo
Elza Soares — uma figura maior que a vida
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Será possível fazer um filme apenas com grandes planos? E se existir esse filme apenas com grandes planos, será possível que seja um documentário?

São perguntas meramente retóricas. Mas o desejo de as formular pode nascer de um filme como "My Name Is Now", uma realização de Elizabete Martins Campos sobre a cantora brasileira Elza Soares.

A questão é esta: registando Elza Soares, as imagens transmitem-nos uma sensação de proximidade física e, mais do que isso, cumplicidade emocional que faz parecer que tudo se apresenta em grande plano... Até porque, no seu ziguezague de teatralidade e confessionalismo (e atenção: uma coisa não exclui a outra!), a cantora se impõe, de facto, como uma presença que transcende qualquer medida tradicional do espectáculo.


O título surge em inglês (à letra: "o meu nome é agora"), não como resultado de qualquer estratégia de "internacionalização", antes porque essa é uma expressão com que Elza Soares gosta de classificar o seu obstinado empenho na energia do momento presente. Talvez possamos mesmo dizer que, através das muitas memórias da protagonista, este é um filme que se conjuga, todo ele, no presente — não há passado que não seja uma configuração do presente.

Enfim, ao expor-se no seu próprio espelho (metáfora muitas vezes aplicada à letra no interior do filme), Elza Soares acaba por desafiar a vocação "descritiva" que, tradicionalmente, podemos atribuir ao olhar documental. As singulares emoções das suas performances diluem qualquer fronteira entre o concreto da existência e a abstração do espectáculo, consagrando-a como figura maior que a vida. Que é como quem diz: "bigger than life".

Crítica de João Lopes
publicado 23:27 - 15 março '19

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