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Uma fábula da Guerra Fria

"A Forma da Água" narra uma desconcertante história de amor entre uma mulher muda e um monstro marinho — socorrendo-se da herança da série B dos anos 50, Guillermo del Toro faz um filme que escapa às convenções correntes da aventura e do artifício.

Uma fábula da Guerra Fria
Sally Hawkins e o seu monstro — à procura da herança da série B
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 Uma fábula da Guerra Fria
A Forma da Água Uma fábula de outro mundo, passada na América de 1962, com a Guerra Fria em pano de fundo. No laboratório secreto de alta segurança do governo onde trabalha, a solitária Elisa (Sally Hawkins ) está presa numa vida de isolamento. A vida de Elisa muda para sempre quando ela e a sua colega Zelda (Octavia Spencer) descobrem uma experiência secreta.

Imaginemos o espírito de aventura, misto de exuberância e angústia, de alguns clássicos de série B dos anos 50 como "O Monstro da Lagoa Negra" (1954), de Jack Arnold... Imaginemos também uma variação sobre o clássico "A Bela e o Monstro" (literário ou cinematográfico), sendo a bela uma mulher muda e o monstro uma criatura marinha recolhida num laboratório para experiências algo suspeitas...

Pois bem, o novo filme de Guillermo del Toro talvez se possa definir como um cruzamento poético de tais elementos. "A Forma da Água" coloca em cena dois seres radicalmente diferentes que, afinal, vão encontrar uma linguagem comum de comunicação — em boa verdade, vão viver uma história de amor.

O que confere a "A Forma da Água" a sua sedução é, precisamente, esse efeito fora de moda da sua concepção e narrativa. Por um lado, não há aqui a ostentação tecnicista que tem dominado o espectáculo mais ou menos ligado aos super-heróis; por outro lado, tudo se passa num registo de assumida fábula em que, sem preconceitos, se relança o primitivo combate do Bem e do Mal.

É, por isso, importante sublinhar a opção cronológica de del Toro, inscrevendo a sua história no período da Guerra Fria, com sinais evidentes dos confrontos entre EUA e União Soviética. Trata-se de relançar a possibilidade da fábula num contexto que, certamente não por acaso, pode sugerir alguns paralelismos com debates que marcam a América contemporânea (nomeadamente em relação a certas formas de discriminação social).

No papel da mulher que não fala, afinal inventando uma linguagem para comunicar com o seu amado monstro, Sally Hawkins mantém uma contenção plena de subtileza(s), aliás acompanhada por talentosos secundários como Richard Jenkins e Michael Shannon. Talvez possamos dizer que o resultado global parece algo formatado, por assim dizer, "ilustrando" tudo aquilo que (já) está revelado no trailer do filme — seja como for, "A Forma da Água" é a prova de que é possível fazer um cinema de elaborados artifícios sem ceder à mediocridade de matrizes há muito esgotadas nas repetições impostas pelas forças dominantes da indústria.

Crítica de João Lopes
publicado 22:38 - 31 janeiro '18

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