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Uma farsa "à la française"

Guillaume Canet encena-se a si próprio, tendo como companhia principal a sua mulher na vida real, Marion Cotillard — "Rock'n'Roll" brinca com nomes e referências do cinema francês, além de integrar Johnny Hallyday num dos seus derradeiros papéis cinematográficos.

Uma farsa à la française
Johnny Hallyday filmado por Guillaume Canet — um filme com sentido de auto-paródia
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 Uma farsa à la française
Rock`n`Roll Para Guillaume Canet, aos 43 anos, a vida corre sobre rodas. Ele tem tudo o que um homem pode querer. No entanto, durante a rodagem de um filme a sua lindíssima co-protagonista de 20 e poucos anos deixa-o em estado de choque ao dizer-lhe que ele já não tem "rock’n’roll". Que, na verdade, nunca o teve. O golpe de misericórdia chega mais tarde quando esta acrescenta que ele caiu a pique na lista ...

Guillaume Canet e Marion Cotillard, marido e mulher na vida real, surgem em "Rock'n'Roll" a interpretar um casal com os nomes... Guillaume Canet e Marion Cotillard. Mais do que isso: o filme corresponde a um empreendimento obviamente pessoal, uma vez que, além do seu papel principal, Canet colaborou na escrita do argumento e, mais do que isso, assina a realização.

Estamos, então, perante um objecto autobiográfico? Uma espécie de "reality show" em que Canet/Cotillard decidem expor-se como personagens de um universo íntimo e confessional, eventualmente suscitando o voyeurismo do espectador?

Nada disso. Cedo compreendemos que vogamos no interior de uma comédia em que as referências pessoais e do meio cinematográfico — incluindo actores "no seu próprio papel" como Gilles Lellouche ou Yvan Attal — devem ser entendidas num registo eminentemente paródico. Aliás, a intriga evoluiu de modo cada vez mais inverosímil, até desembocar num tom de assumida farsa.

É pena que o filme seja algo desconexo, combinando situações mais elaboradas com muitos gags pouco trabalhados ou apenas simplistas. Seja como for, "Rock'n'Roll" reflecte uma salutar atitude crítica em relação às ilusões da fama, sendo obrigatório sublinhar a sofisticação com que Cotillard aprende o sotaque canadiano da língua francesa porque foi convidada para um filme de... Xavier Beauvois (referência, aliás, verídica, uma vez que ela integrou o elenco de "Tão Só o Fim do Mundo").

Registe-se, enfim, que a falta de energia rock que atinge a personagem de Canet o leva a procurar os conselhos de Johnny Hallyday... É uma cena tão bizarra quanto divertida, além do mais irremediavelmente nostálgica. Foi mesmo uma das derradeiras experiências cinematográficas do rei do rock francês — o filme estreou-se em França em Fevereiro de 2017, tendo Hallyday falecido cerca de dez meses mais tarde, a 5 de Dezembro.

Crítica de João Lopes
publicado 23:58 - 29 março '18

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