Uma aventura à procura de uma alternativa humana para o planeta Terra


joao lopes
5 Nov 2014 13:32

Por lamentável efeito da mediocridade conceptual das telenovelas, a palavra melodrama passou a ser muitas vezes associada a uma banalidade "fácil" e "sentimentalóide"… De facto, o registo melodramático é um dos mais nobres da história do cinema, de tal modo que podemos encontrar a sua expressão em cineastas de David W. Griffith a Clint Eastwood, passando por Vincente MinnelliMax Ophüls ou François Truffaut — é sua vocação abordar os mais diversos temas, da sexualidade à política, sem nunca perder a inscrição dos seres humanos num espaço íntimo e familiar.

O maior trunfo — e também o maior risco — do novo filme de Christopher Nolan, "Interstellar", consiste em encenar uma dramática viagem espacial sem nunca perder essa dimensão intimista. De alguma maneira, a sua identificação como uma aventura "galáctica" (porventura favorecida até por algumas formas da respectiva campanha promocional) é um equívoco. O motor da história que se conta em "Interstellar" passa sempre, assim, pela activa duplicidade da demanda de Cooper (Matthew McConaughey).
Que duplicidade é essa? Pois bem, Cooper está envolvido na procura de um planeta alternativo para a raça humana, ao mesmo tempo que a sua deambulação espacial nunca deixa de ter como motivação primeira a relação afectiva com a sua filha, Murph (sucessivamente interpretada por três magníficas actrizes: Mackenzie Foy, Jessica Chastain e Ellen Burstyn). Dito de outro modo: a fragilização do planeta Terra, com a destruição dos recursos naturais da humanidade, cruza-se com a vontade de persistência dos laços familiares.
Em 1977, nesse filme magnífico que é "Encontros Imediatos do Terceiro Grau" (bem diferente nas suas formas de espectáculo, mas também ligado à mesma pulsão melodramática), Steven Spielberg relançou o tema da solidão cósmica da humanidade, através de uma frase emblemática que estava inscrita nos cartazes do filme: "Não estamos sós". Dir-se-ia que, num misto de prospecção e encantamento, "Interstellar" aposta no relançamento dessa máxima, agora como uma pergunta que envolve a própria possibilidade de sobrevivência dos humanos.
Num tempo de glorificação simplista dos recursos tecnológicos do cinema (os célebres "efeitos especiais" ao serviço de "super-heróis" por vezes sem qualquer espessura dramática), o trabalho de Nolan mostra que tais recursos podem ser parte importante da mais delicada, complexa e ambiciosa arte de contar histórias. Talvez possamos sentir que há, por vezes, desequilíbrios nos tempos de exposição dos vários capítulos (quem sabe se, apesar de durar mais de duas horas e meia, o filme não ganharia em ser ainda francamente mais longo) — seja como for, "Interstellar" é uma empolgante experiência intelectual e sensorial.

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