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“Velhas da Terceira”, um livro que é um monumento Victor Rui Dores

“Velhas da Terceira”,  um livro que é um monumentoVictor Rui Dores
“Velhas da Terceira”,
um livro que é um monumento

Dar a conhecer manifestações da nossa cultura popular é tarefa que o terceirense Liduíno Borba, autor e editor, tem vindo a realizar com reconhecido mérito. E grande é o seu interesse pela recolha, registo e divulgação de materiais de cultura oral, prosseguindo caminhos trilhados por outros estudiosos da ilha Terceira: Gervásio Lima, João Moniz, Luís da Silva Ribeiro, João Ilhéu, Augusto Gomes, José Henrique Borges Martins, entre outros.
Desta vez, e com a preciosíssima colaboração de José Fonseca de Sousa, os co-autores de Velhas da Terceira (Turiscon Editora, 2020), após muitas horas e longos dias de trabalho árduo, dão à estampa não um livro, mas um monumento! Aqui ficam registadas, para memória futura, 2.650 “Velhas” correspondentes a 133 cantadores que as cantaram, improvisaram e/ou escreveram. É obra!
Canção tradicional da Ilha Terceira, com raízes fundas e profundas nas “Cantigas de Escárnio e Maldizer”, as “Velhas” denotam ainda influência da “Chacota”, “canção de fazer rir verdades e fantasias”, um dos géneros musicais utilizados por Gil Vicente para “criticar, troçar de tudo e de todos, mas a todos divertindo”, usando, por vezes, um vocabulário desbocado. O estilo de crítica humorística do pai do teatro português correu e encontrou simpatizantes a imitá-lo. Como os Açores se encontravam ainda no período de povoamento, bastou que um desses simpatizantes improvisadores viesse parar à ilha Terceira para que a canção, com as devidas adaptações, se vulgarizasse. Prova provada e comprovada de uma criatividade popular açoriana, de resto bem patente nos nossos romanceiro, cancioneiro e adagiário.
A cantiga “As Velhas” satiriza as velhas e os velhos pretensiosos que aspiram ao casamento e recorrem a artifícios para disfarçarem as ruínas da velhice. Aliás, o casamento de velhos, a grande diferença de idades entre casados e as alusões de carácter sexual foram sempre objecto de troça e motejos por parte do povo. E, neste aspecto, as “Velhas” também se inscrevem numa tradição medieval muito portuguesa que se prende com as “Chocalhadas” e as “Arruaças”. Nesta matéria, e conforme deixei escrito no prefácio ao livro As Velhas, Cantigas de Escárnio e Maldizer (Edições BLU, 1996), de José Henrique Borges Martins, permito-me discordar frontalmente do etnólogo Luís da Silva Ribeiro que encontra nas “Velhas” uma origem brasileira, com possíveis afinidades com o “Lagarto Carejó”, um catereté baiano (dança acompanhada de canto, sapateada e palmeada ao som da viola). Para não me alongar muito sobre a origem das “Velhas”, remeto o leitor para as opiniões de vários autores e que vêm transcritas no livro em apreço.
As “Velhas” possuem uma estrutura poética constituída por uma sextilha e uma quadra. Quando cantadas bisam-se os dois tercetos da sextilha. Deixo-vos este exemplo de uma “Velha” do improvisador João Ângelo:
Há velha que no verão
Dá-lhe muita aflição (mote)
Com a força do calor.

Algumas andam de shorts
E se têm as pernas fortes (desenvolvimento)
Parece as rodas de um tractor.

E alguma mais magrinha:
De canelos descarnados (remate)
Só parece uma galinha
Já nicada dos queimados.

Mais recentemente tem havido uma evolução na temática desta canção terceirense no sentido de ela não ser apenas satírica, mas também constituir um pretexto para o exercício de uma crítica social que pode ir da breve alusão à mordacidade e ao sarcasmo mais cruéis. Fazer humor numa décima não é fácil, nem é para todos. A agudeza de espírito, o humor sagaz e a capacidade de ironia são, por isso mesmo, as qualidades mais apreciadas nos cantadores.
Licenciosas e por vezes grosseiras, cantadas no terreiro, no arraial ou no salão, provocando acessos despiques entre os cantadores e o riso cúmplice do povo, as “Velhas” são sempre irónicas, picantes e atrevidas. E são, hoje, pertença exclusiva da ilha Terceira.
Em matéria de cantigas ao desafio poderemos dizer que, na “ilha de Jesus”, há um antes e há um depois dos improvisadores Terra, Bravo, Charrua e Turlu, tal como a cantar “Velhas” há um antes e um depois de António Martins Maio (Doninha) e de João Ângelo, mestre de cantorias e lavrador de palavras. Os 130 autores aqui antologiados, desde os mais antigos (século XIX) até aos já nascidos neste século XXI, dão forma e conteúdo a uma tradição musical e poética que remonta às já mencionadas “Cantigas de Escárnio e Maldizer”. Para além da transcrição das 2.600 “Velhas”, este livro dá ainda conta dos despiques renhidos em que se envolveram os seus cantadores, traçando sobre eles breves perfis biográficos, com informações precisas sobre os lugares e espaços onde as cantorias aconteceram.
Curioso é verificar, neste livro, a evolução que o humor sofreu ao longo dos tempos. No século XIX, o povo ria a bandeiras despregadas quando o Manuel Vieira da Costa (nascido em 1863, desconhecendo-se o ano do seu falecimento) inocentemente cantava: “Meu avô mais tua avó/ Andavam sempre a discutir/ Ninguém sabe nem adivinha./ Brigava o velho com a velha/ Porque ela não atinava/ O que era uma campainha./ Diz a velha, eu já sei: / -É uma coisa a modo assim/ Que tem badalo no meio /E toca trelim, tim, tim”. Hoje o humor tem laivos de uma outra sofisticação. Atente-se, por exemplo, nesta “Velha” de António Mendes, de Santa Bárbara: “Certo velho que casou/ Do tal viagra tomou/ Que era para experimentar./ Ficou um mês alterado/ E por fim morreu coitado/ E lá foi a enterrar./ Ia de caixão aberto/ Com uma coberta singela/ Dizia quem estava perto/ Que parecia um barco à vela”.
Uma coisa, porém, é comum às “Velhas” de todos os tempos: elas implicam, não explicam. Por isso, constituem um desafio à nossa sensibilidade e à nossa inteligência. Num mundo globalizado e massificado, esta cantiga marca uma diferença e deve constituir uma mais-valia cultural porque de uma arte poética se trata. É isto que Liduíno Borba, em boa hora, nos vem lembrar nesta obra que passa a constituir referência obrigatória no âmbito do estudo da cultura popular dos Açores.
Estamos perante materiais de literatura popular valiosíssimos e que, nas 622 páginas de Velhas da Terceira, se arrumam para hilariante fruição do público leitor.

Victor Rui Dores