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Discurso em DIA DE ANTERO por Pedro Bettencourt Gomes

Discurso do Presidente da Associação dos Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental na Sessão de Lançamento do livro “As Fadas” - 18 de Abril de 2017

Discurso em DIA DE ANTERO porPedro Bettencourt Gomes

Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada
Exmo. Senhor Director Regional da Ciência e Tecnologia, em representação do Senhor Presidente do Governo Regional dos Açores
Exmo. Senhor Presidente Mota Amaral
Exmo. Senhor Dr. Pedro Pascoal, Comissário das Comemorações de Antero de Quental
Exma. Senhora Dra. Maria João Ruivo
Minhas Senhoras e meus Senhores


No preciso dia em que se comemoram 175 anos do nascimento de Antero de Quental, reunimo-nos no Salão Nobre da Câmara Municipal de Ponta Delgada, em sessão evocativa, sob o testemunho das suas descendentes - Ermelinda Quental da Câmara e Leonor Quental Mota, sobrinhas-bisnetas, cuja presença nos honra - e de várias gerações de açorianos, para celebrar um açoriano maior.
É com enorme orgulho que a Associação de Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental assinala este dia com o lançamento duma nova edição do poema “As Fadas”, escrito em 1883, por Antero de Quental e ilustrado por alunos da Escola Secundária Antero de Quental – do 11º H, do 12º F e do 12º G - num intenso trabalho criativo, coordenado pela Dra. Nina Medeiros, a quem agradeço do fundo do coração terem aceitado este desafio.
As lindíssimas ilustrações que enriquecem esta reedição d’ “As Fadas” demonstram bem que os Açores continuam a ser uma terra de artistas talentosos e que a Antero de Quental – o nosso Liceu – continua a cultivar o talento e a excelência artística.
Agradeço, também, à Maria Helena Frias e ao José Carlos Frias, que aceitaram um outro desafio – o de editarem esta obra, através da sua editora, a Artes e Letras - conjuntamente com a Associação dos Antigos Alunos.
O José Carlos Frias é o derradeiro livreiro do Atlântico e a sua editora é a única editora açoriana a editar as obras de Antero de Quental. Há um ano atrás, editou os “Sonetos Completos”. Hoje, edita “As Fadas”. Saúdo o José Carlos Frias com um caloroso agradecimento.
Agradeço, igualmente, à Nova Gráfica, na pessoa do seu sócio-gerente, José Ernesto Resendes, cujo empenho pessoal e dedicação permitiram ultrapassar diversos obstáculos para que esta cuidada edição pudesse ser lançada hoje.
Por fim, mas não por último, agradeço ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada a imediata adesão ao projecto da reedição d’ “As Fadas” e o apoio para a sua publicação, prestado de imediato e com a convicção de que a publicação desta obra, com ilustrações duma nova geração de alunos, é uma forma de celebrar a arte e a diversidade cultural dum modo universalista.
Senhor Presidente: V. Exa. comprovou, uma vez mais, que é um homem de grande sensibilidade, que acredita nas gerações mais jovens, valoriza a cultura como forma de afirmação da identidade açoriana e reconhece o imnprtância da cooperação com as instituições com sede no concelho de Ponta Delgada. Reconhecidamente, agradeço o seu apoio pessoal e o apoio da Câmara Municipal de Ponta Delgada.

Minhas Senhoras e meus Senhores

Eduardo Lourenço referiu-se a Antero de Quental, dizendo que “não há na nossa literatura, nem mesmo Camões, poeta tão naturalmente universal como Antero de Quental, dada a natureza ideal da sua inspiração e o conflito que a alimenta, pura interpelação do espírito sobre si mesmo no meio dum mundo incompreensível.” (Antero e o Imaginário Nemesiano).
A ilha – a ilha-universo - sempre presente na poesia de Antero, nunca foi uma prisão para o espírito, para a ideia de bem universal ou para a ideia de mudança política, que perpassa na sua obra filosófica.
A geração de 1870, em que se incluem Antero de Quental, Oliveira Martins ou Eça de Queiroz - dita geração pessimista – não foi uma geração de descrentes da identidade nacional, das qualidades dos portuguese ou do destino do país, mas antes uma geração que lutou pelos seus ideais, durante a monarquia constitucional, percebendo que Portugal definharia se se fechasse sobre si próprio.
As Conferência do Casino, quer pelos temas que trataram, quer pelo impacto e debate que produziram, revelaram bem um novo modo de intervenção política duma geração que não pegou em armas para se bater pelas suas ideias. Mais do que uma revolução política, Antero e a Geração de 70 desejavam uma revolução social, um despertar da consciência social, como diríamos hoje.
É este Antero múltiplo – o poeta, o pensador, o filósofo e o político - que celebramos neste 18 de Abril.
Um Antero que luta pela liberdade, um reformador social, um poeta sensível - da ilha, da universalidade do ser, da luz, mas também duma profunda e abissal escuridão.
N’”As Fadas”, que agora temos numa preciosa edição, encontro o traço da luminosa esperança, na convocação do sonho, que nos impele para a mudança, no desejo de que a vida seja temperada com a fantasia e a doçura, que esconjuram as agruras do dia-a-dia.
Mesmo que possamos ceder aos caprichos das fadas más, há as outras que nos mostram o bom caminho.
No fundo, “As Fadas” são uma parábola moral, enunciando o velho conflito entre o bem e o mal, o certo e o errado, celebrando o livre arbítrio e a possibilidade de cada poder fazer as suas escolhas.
É talvez, por isso mesmo, que gosto deste poema. Por ele celebrar a liberdade essencial da escolha que cada um pode fazer, porque na vida, há sempre alternativas, mesmo quando os caminhos parecem apagar-se.
No soneto “A evolução”, Antero celebra assim a liberdade:
“Interrogo o infinito e às vezes choro…
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.”

A liberdade vale sempre a pena.