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Eduíno, 93 anos de sabedoria. por Lélia Pereira S. Nunes

Eduíno, 93 anos de sabedoria.por Lélia Pereira S. Nunes
Eduíno, 93 anos de sabedoria.

Alguém, certa feita, pediu ao Eduíno de Jesus que fizeste a sua biobliografia bem sucinta. Como se isso fosse possível!!! Porém, ele não se fez de rogado e daquele seu jeito eduíano respondeu:
“Sou natural da ilha de São Miguel, nascido nos Arrifes, criado em Ponta Delgada. Estudei no Liceu e na Escola do Magistério Primário desta cidade e nas Faculdades de Letras de Coimbra e de Lisboa. Licenciei-me em Românicas. Fui professor primário em Ponta Delgada e nos arredores de Coimbra; depois, do ensino técnico em Lisboa; e por fim (nos últimos vinte anos da minha carreira de docente) na Faculdade de Letras de Lisboa. Publiquei os seguintes livros de poesia: Caminho para o Desconhecido,1952; O Rei Lua,1955;A Cidade Destruída durante a Eclipse,1957. Também publiquei uma peça de teatro:5 Minutos e o Destino,1957.”
Esta entrevista aconteceu há 16 anos. Fico a pensar no muito que teria para ser acrescentado ao dito acima. Decerto ele ficaria ali sentado burilando cada palavra, talvez reescrevendo ou refazendo sem querer ser “de mais”. Parece até que estou a ouví-lo: “que é preciso limar, revejo-os, transformo-os, destruo-os, começo-os de novo. Tenho muita papelada a que soprar o pó, maquilhar, apurar a toilette para o palco...”
Ou seja, tudo na medida certa. Porém, sem se dar por isso, desenhava o belo retrato que aprendemos admirar. Único, na imensa modéstia do ser humano grandioso e magnífico – Eduíno de Jesus, o poeta, o virtuoso da palavra, o esteta, mestre, o sábio. Também é o meu “amadinho amigo” que aniversaria no próximo dia 18 de janeiro, esbanjando juventude e sabedoria.
Queria atravessar o Atlântico e chegar bem juntinho dele e dar um abraço apertado de parabéns. Um abraço grande daqueles que enlaça o amigo por inteiro, que faz sentir o coração bater forte no lado esquerdo do peito, feliz na partilha de sentimentos, no calor da amizade cultivada com muito amor, admiração sem limite e dizer MUITO OBRIGADA, AMADINHO! Assim mesmo com letras maiúsculas.
Queria tão coisa! Na impossibilidade física, deixo a memória viajar até Lisboa e relembrar momentos passados ao teu lado. Caminhas comigo? Afinal, já disseste mil vezes: “Lélia, não páras, sempre em dobadoiro! “.
Querido Eduíno, passamos momentos memoráveis, que agora relembro como se surgissem de um calidoscópio, em cujo fundo fragmentos de vidro colorido refletem em espelhos angulares infinitas imagens de um deambular contagiante.
Agarradinha no teu braço andamos pela Baixa e Chiado sem pressa. E tu apresentaste uma Lisboa linda, cheia de história, de poesia, de música, de arte na sua arquitectura urbana. Seguimos e , sem dar a mínima para o burburinho dos turistas ao nosso redor e os esparsos pingos de chuva que começavam a cair ias falando de uma Lisboa cheia de contrastes entre o novo e o antigo e que fascina sempre. Foi, então, que veio à lembrança uma propaganda turística que li no avião e que dizia : Lisboa não se vê, sente-se. Encerramos o périplo no salão de chá da secular Bernard e lá nos deixámos ficar imaginando, em doce cumplicidade, outras personagens que no passado flanaram de par em par por tardes pra lá de fagueiras. Por falar em Chá...recordas do Chá verde com aromas de cerejas do Japão na rua das Salgadeiras na “Salão de Chá Cultura do Chá”, assim mesmo, com a palavra "chá" repetida?
E da visita que fizemos a exposição A Perspectiva das Coisas sobre o tema A Natureza-Morta na Europa (séculos XIX-XX) na Fundação Calouste Gulbenkian, na tua companhia e da saudosa Hélia? Eu me achava em estado de graça absoluta. Estar ali na tua companhia era mesmo um privilégio e vi que muitas pessoas que visitavam a exposição começaram a perceber que “aquele simpático senhor” sabia tudo e foram se chegando de mansinho para escutá-lo em respeitosa admiração. Lembro bem que comecei a rir deliciada da cara de espanto do querido amigo. Sua figura pequena agigantou-se, sua aura brilhou. Recordo-te ali e sim foi um momento único. Só não digo que foi coisa do Divino. Não foi, não. Pois, Divino estava sendo o próprio Eduíno em sua lição de mestre.
Na companhia de Eduíno de Jesus fui à Amadora visitar a exposição “Bual Revisitado”, na Galeria Municipal Artur Bual, integrada na comemoração dos 40 anos do“25 de Abril”. Guiada por Eduíno, caminhei encantada pelo “mundo Bual”, representado por essa retrospectiva de suas obras. Eduíno captou a minha ânsia de querer perceber tudo, de devorar, literalmente, as suas palavras e correr para registrá-las sem perder nada da análise minuciosa, reflexiva, histórica. Tarefa inglória. É como querer chupar cana e tocar flauta ao mesmo tempo. Pelo menos, tentei...Guardarei para sempre a reafirmação da inquestionável lição do mestre – “afinal o que importa na obra de Arte é o real ou a forma que apresenta na obra enquanto assunto dela configurado na forma da expressão.”
Rascunhei “umas mal notadas regras”, como dizia noutro tempo o povo de S. Miguel para de dizer o quanto aprendi e vou continuar aprendendo. Até quando Deus quiser e Ele há de querer.
.Por isso, encerro com todos os meus pensamentos e carinho voltados para ti, querido Eduíno. Embora, brindar não seja o teu forte, permitas que levante um brinde aos teus 93 anos de tudo com um delicioso Gin tónico que a data pede. Gosto de imaginar que estás para ali a ouvir umas Sonatas e Sinfonias de Haydn, teu compositor predileto, talvez a Sinfonia 94 – “Surprise”,2nd...enquanto eu na margem de cá ouço Barcelona na voz de Freddie Mercury.
Feliz Aniversário, meu amigo Eduíno.de Jesus!