Comunidades

"Nem Sempre a Saudade Chora": Os Açores e a sua Diáspora, por Diniz Borges

Nos Açores é que se investe
Para bem da nossa terra.

Padre Mateus das Neves do poema "O amaricano"

Nem Sempre a Saudade Chora: Os Açores e a sua Diáspora, por Diniz Borges
"Nem Sempre a Saudade Chora"*: Os Açores e a sua Diáspora

A emigração açoriana é, como se sabe, quase tão antiga como é o nosso povoamento.  

O arquipélago tem sido ponto para muitas partidas com poucos regressos. Com quase 400 anos de emigração, com comunidades espalhadas pelo Brasil, pelos Estados Unidos, pelo Canadá, pela Bermuda, pela Austrália e outras partes do globo, a diáspora açoriana é hoje, num mundo globalizado, um dos recursos mais importantes que o arquipélago possui. A açorianidade que se vive nas comunidades das Américas, a vitalidade de uma diáspora integrada e ligada à sua terra natal, ou à terra dos seus antecessores, é, indubitavelmente, uma das maiores riquezas da Região.  

Os Açores não seriam os mesmos Açores sem a sua Diáspora e ainda bem que este Governo Regional, chefiado por Vasco Cordeiro, acaba de criar um instrumento que, como disse Rui Bettencourt, Secretário Regional Adjunto da Presidência para as Relações Externas: “criará as condições para que os açorianos que vivem fora da Região tenham a possibilidade de participar no projeto açoriano.” É tempo de se institucionalizar este relacionamento especial dos Açores com os emigrantes e seus descendentes que tal como nos disse o poeta florentino Pedro da Silveira: “ergueram, vilas e cidades na pátria estrangeira.” O Concelho da Diáspora Açoriana é o passo certo no momento certo. 

Ao longo de vários séculos que os açorianos, de todas as ilhas, têm olhado, além-arquipélago, para a sua sobrevivência. Apesar da incontestável beleza dos Açores, hoje disseminada (e ainda bem) em revistas e jornais de viagens e turismo em todo o mundo, o arquipélago foi, durante muitos anos, vítima de um total abandono pelos poderes centrais, que a bem da verdade, raramente olhavam além da dita “capital do império.” 

O estatuto autonómico dos Açores, agora com quatro décadas de vida, e ainda incompreendido por muita gente, particularmente, e em larga escala, infelizmente, por muitos diplomatas portugueses, deu à Região os instrumentos necessários para as oportunidades e as responsabilidades que advêm de uma governação própria. Desde o momento da autonomia que os Açores começaram a olhar para as suas comunidades e encetou-se o processo de aproximação. Desde então que se iniciaram intercâmbios e apoios a estudos sobre a nossa presença nas Américas. Essa aproximação, fortaleceu-se no primeiro governo do PS ao criar-se a Direção Regional das Comunidades, e, cimentou-se a 3 de julho deste ano em curso ao ser aprovada por unanimidade, no plenário açoriano, a criação do Conselho da Diáspora Açoriana (CDA). É que tal como Rui Bettencourt afirmou na apresentação deste projeto-lei: “a diáspora açoriana no mundo—em particular nos Estados Unidos da América, no Canadá, na Bermuda e no Brasil, caracteriza-se, hoje pela sua presença, influência, afirmação, e mesmo liderança em áreas tão diversas como na economia, no empresariado e na criação de riqueza, na atividade académica, na política, na ciência, na tecnologia, na inovação e na investigação, na cultura e na intervenção social.” 
 
Os Açores são as nove ilhas da Região, mas também são a sua Diáspora. A criação deste novo conselho institucionaliza esse conceito. 

O Governo e o Parlamento entendem, e ainda bem, que o espaço Açores não é só as nove ilhas e o mar que as rodeia, mas os emigrantes e açor-descendentes que plenamente integrados nas suas sociedades continuam a ser açorianos e com outros mecanismos e projetos, como este CDA, possuem um potencial colossal para o arquipélago e as 243 mil pessoas que continuam a habitar estas ilhas paradísicas. 
 
Não é fácil entender a força telúrica que estes pedaços de basalto têm nas novas gerações. Há anos que conto uma das histórias mais bonitas em várias décadas de dar aulas. Um aluno que no primeiro dia se identificou como J. Makorowski, dizendo que estava ma minha aula porque era açoriano. Quando lhe questionei a identidade, pelo nome, perentoriamente respondeu: “sim, eu sou açoriano, porque a minha avó velhinha (bisavó como se sabe) era de São Jorge.” Este jovem com sangue de várias etnicidades, desde polaco a irlandês, identificava-se, como tantos outros ainda a fazem, com as nossas ilhas e a nossa cultura e querem aprender mais sobre quem são e contribuir para as ilhas da sua ancestralidade. Cito de novo a profunda alocução de Rui Bettencourt perante o parlamento açoriano: “estes açorianos, da primeira geração, mas igualmente filhos, netos e bisnetos, em alguns casos descendentes de açorianos de quinta ou sexta geração, são portadores dos Açores no mundo e sentem-se, e são, tão açorianos como nós.” 

Esta realidade, alicerçada pela presença de emigrantes e açor-descendentes nos mais variados campos da sociedade onde se integraram, conjugada num projeto que irá além do saudosismo, institucionalizado e com objetivos próprios, permitirá que os Açores estejam de braço dado com a sua Diáspora, construindo uma Região única para quem nela vive e para quem, à distancia, vive com ela. É imperativo como nos disse Rui Bettencourt, que todos os açorianos, de todas as gerações, estejam onde estiverem, possam participar no desenvolvimento dos Açores. No mundo de hoje, isso é perfeitamente fazível. O labor que os diretores regionais têm feito, particularmente Paulo Teves, que nos últimos 7 anos tem trabalhado imenso para aproximar as novas gerações, permitiu este momento. 
 
O primeiro passo está dado para um conselho que como afirmou o Secretário Regional, “não é um simples conselho consultivo, onde apenas se ausculta: este é um conselho onde se pretende envolver no desenho dos Açores do futuro o nosso povo espalhado pelo mundo.” Claro que há muito trabalho a fazer. É mais do que óbvio que não será um processo fácil e em breve aparecerão os cínicos e os que atropelam só por atropelar, porém como nos disse Oscar Wilde: já todos sabemos que os cínicos sabem o preço de tudo e o valor de nada. Há, pois, que pegar neste projeto de unir os açorianos em todo o mundo, através deste Conselho da Diáspora (CDA) e construirmos os Açores e as comunidades que todos queremos: uma região mais coesa, mais facultosa, com mais oportunidades para os jovens e com um crescimento mais significativo na qualidade de vida de cada um dos seus habitantes. E uma comunidade mais consciente do seu legado cultural, mais empenhada no futuro da região, mais entendedora de que, na realidade nem sempre a saudade chora e que os conceitos do emigrante não são os mesmos das novas gerações. Como apologista de que os Açores só o são na realidade com as suas comunidades, com a sua Diáspora, acredito que este Conselho da Diáspora será benéfico para a região e a diáspora. Estou convicto de que trará benefícios mútuos. Estou consciente que o trabalho que se deve fazer entre os cidadãos é longo, quer com os residentes, quer com as comunidades (emigrantes e açor-descendentes) e terá que ser baseado no que o antigo presidente americano Barack Obama disse: “há que lutar pelo que se acredita. Não nos devemos sucumbir ao cinicíssimo. Não devemos desistir com as dificuldades. É que todos nós temos de decidir: ou participamos num mundo cínico ou num mundo de esperança.” Prefiro a esperança! 
 
Este é momento de instituir uma outra ligação entre os Açores e a Diáspora. Uma ligação que vá além da esporádica visita de saudade. Os Açores são mais do que um copo, um bom petisco e uma iluminação. No pós-modernismo do século XXI, na era dos investimentos globais, as oportunidades económicas existem nos Açores e os açor-descendentes podem contribuir para o desenvolvimento da terra dos seus antepassados, que também é sua, enquanto beneficiam como investidores, como agentes culturais, como intervenientes em vários campos. Ainda bem que Vasco Cordeiro anunciou, aqui Califórnia, há três meses, este projeto. Ainda bem que na Assembleia Legislativa Regional todos os partidos se pronunciaram e votaram a favor. Como disse o deputado José San-Bento, este conselho: “representa um novo patamar, um patamar nunca alcançado de relacionamento entre a Região e as nossas Comunidades. Representa o reconhecimento e influência crescentes das nossas comunidades quer na Região quer nos seus países de acolhimento.” 
 
Rui Bettencourt relembrou-nos a pertinência das palavras de Vitorino Nemésio, escritas há meio século: “a verdade é que o açoriano, embora comedido e pausado nos gestos, civilizou largamente as ilhas e ainda teve vagares para ajudar a terra alheia, sobretudo o Brasil e a América.” É tempo da contra viagem, ou a viagem ao contrário como escreveu Manuel Ferreira Duarte. Uma viagem ao contrário que seja fundamentada nas novas comunidades e nos novos Açores. O Governo e o Parlamento açorianos deram o primeiro passo. A Diáspora certamente que dará os próximos. Juntos, e com a nossa identidade dispersa, e daí ainda mais universal, trabalhando em conjunto, teremos, certamente, a Diáspora e a Região que todos ansiamos.


*titulo de uma antologia de poesia açoriana sobre emigração açoriana que organizei e prefaciei, proveniente de uma quadra da saudade do cancioneiro popular da ilha Graciosa.
Diniz Borges