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Das euforias de um megaconcerto

Crónica de Victor Rui Dores

Das euforias de um megaconcerto


Fui, para saber como é, assistir em Lisboa a um desses megaconcertos desconcertantes que fazem convergir multidões para um mega espaço.

Há quem goste de heavy metal, e ninguém é perfeito… Mas convenhamos que, em termos de uma qualidade estrita e intrinsecamente musical, aquilo vale zero. Sem melodia, sem harmonia, só ritmo, pancadaria, chinfrineira… Sim, estou perante um espectáculo essencialmente de som, com uma componente visual ondulatória e uma panóplia vastíssima de tecnologia sonora e luminotécnica, instalada num mega palco.

O vocalista, já entradote na idade, salta e gesticula como um macaco, deslocando-se no palco em passada larga e determinada. A sua gestualidade frenética (sempre a dizer que sim com a cabeça, sem se saber a razão de tal concordância) deixa antever efeitos de substâncias químicas… Os guitarristas actuam de forma estrepitosa… O baixista parece um zombie… O baterista, esse, passa-se dos carretos… A propósito: tal como acontece com atletas profissionais, seria interessante (e até desejável) que se fizessem igualmente análises com o objectivo de detectar estupefacientes e estimulantes no sangue e nas urinas de alguns cantores e músicos… Não se arranja por aí uma lei que a tal obrigue?

Cá em baixo, os fans em delírio, de braços no ar e em atmosfera eufórica, vivem experiências alucinantes, correspondendo (aos saltos, aos berros e aos empurrões) aos urros do vocalista que a eles se dirige em frases curtas mas tão profundas como:

-Do you feel good?

A resposta é um tonitruante YEAAAAAH!!! E, embriagados, vão dizendo uns para os outros: “É brutal”!




Nesta atmosfera de desvarios delirantes, penso naquele outro maluco que, não há muitos anos, se dedicava, durante as suas actuações, à degola de galináceos… Decididamente alguns “artistas” não deviam estar a actuar em cima de palcos, mas trancados em cadeias ou manicómios…

Não é novidade para ninguém: os excessos de ordem química levam frequentemente à morte de um número assinalável de “vedetas” famosas que, muitas vezes, escolhem para seu acto final o doce conforto de banheiras em luxuosos hotéis… Retrocesso civilizacional: o culto de deuses com pés de barro continua na ordem do dia.

Mas voltemos ao referido megaconcerto. Com uma coreografia bizarra e provocatória, o vocalista não canta – grita e guincha. Vibração ensurdecedora. Aliás, vários especialistas têm chamado a atenção para os notórios e preocupantes problemas auditivos irreversíveis, devido ao estardalhaço do som vomitado por poderosíssimas colunas. Olho à minha volta e vejo uma geração de futuros moucos… Uma juventude que acha que um livro de 15 euros é muito caro, mas que não se coíbe de pagar 80 euros para ali estar a ouvir decibéis inimagináveis.

Os meus ouvidos é que já não aguentam mais. Saio e deixo o megaconcerto a meio. 





























Victor Rui Dores