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Do amor e do erotismo

Crónica de Victor Rui Dores

Do amor e do erotismo


                                    “Julieta vive hoje num 25ª andar… Já não há Romeu”… 
                                                                                                   Leo Ferré 


Vivemos numa época em que, manifestamente, o amor não está na moda. E isto porque ele tende a desvanecer-se na vertigem do nosso quotidiano, dominados que estamos pelo social, pelo político, pelo económico e pelo pragmático. 

O amor está cada vez mais banalizado e estereotipado pelos media. Vamos perdendo, a pouco e pouco, o sentido do sonho e da utopia e o resultado salta à vista: assiste-se hoje à indiferença, ao amesquinhamento e à repressão que os diversos poderes vão, propositadamente, lançando sobre tudo o que seja afecto, amor, sentimento, paixão… 

Por outro lado, as linguagens teóricas depreciam o sentimento amoroso. E, como se isto não bastasse, o sujeito apaixonado é desprezado e assimilado a um lunático… 

Em estado de “isolamento social”, deu-me para reler Fragmentos de um Discurso Amoroso (1977), de Roland Barthes, autor muito em voga nos meus tempos de Faculdade de Letras de Lisboa. 

Segundo aquele semiólogo francês, o provérbio mente: o amor não é cego. Pelo contrário, tem um incrível poder de decifração, que tem a ver com o elemento paranóico existente em todo o apaixonado, que conjuga aspectos de neurose e psicose. Ou seja, o apaixonado é um atormentado, um louco. Vê claro. Mas o resultado é muitas vezes o mesmo como se estivesse cego. 

Já não temos a morfologia do apaixonado, dos seus traços, das suas expressões, da sua mímica arrebatada e enlevada. No século XIX havia centenas de litografias, pinturas e gravuras que o representavam, mas hoje temos alguma dificuldade em reconhecer um apaixonado na rua… 

Perguntar-se-á: o que fica do apelo daqueles antigos postais eróticos que faziam as delícias dos nossos avoengos? Talvez a possibilidade de redescoberta, ou melhor ainda, da reinvenção do erotismo que é sempre possível enquanto houver homens e mulheres. Afinal de contas, a razão permanece do lado dos poetas, que sabem que o erotismo não deve perder-se na febre mercantilista, antes precisa de se redescobrir como arte maior. 




Com efeito, nos tempos que correm, o erotismo adquiriu uma dimensão consumista que o vulgarizou e lhe retirou parte do encanto. Isto é, deixou de ser sinónimo de “paixão amorosa” e “amor lascivo”, como consta nos dicionários, para se tornar em mais um elemento de compra e venda. A utilização do erótico na publicidade é de há muito um dado adquirido: as mais íntimas imagens do corpo servem atualmente para ajudar a vender tanto eletrodomésticos como shampôs… 

Se o discurso amoroso não está na moda, o amor romântico muito menos. Basta aqui dizer que os nossos jovens preferem o uso do verbo “curtir” do que o verbo “amar”… É que, hoje, são outras as componentes semânticas: sexualidade, intimidade, prazer, sedução, sensualidade, desejo… 

Longe vão os tempos em que os prazeres da vida foram condenados a partir do Concílio de Trento... A moral católica alertava para os inimigos da alma (o mundo, o diabo e a carne) e estabelecia os sete pecados mortais (soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça), reduzindo o sexo a uma mera atividade reprodutora. Como explicava no século XIX o filósofo “maldito” Wilhelm Reich, tornava-se necessário fazer do sexo e do erotismo um verdadeiro tabu, para que os imperativos económicos do feudalismo pudessem vingar: menos tempo para o amor significava mais tempo para o trabalho – assim acreditavam os grandes senhores. Em vez de fonte de prazer, o sexo e seus derivados eram encarados como a razão de todos os males – aliás, de acordo com o princípio do pecado original, sem o qual a Humanidade nunca teria chegado a existir. 

Por conseguinte, não é de agora a confusão entre amor e sexo. Ontem como hoje, parece prevalecer aquela máxima anglo-saxónica que diz que “tudo o que é bom na vida ou é imoral, ou é ilegal ou engorda”… 













Victor Rui Dores