Reposições  

A música e a magia de Jacques Demy

Grande acontecimento no mercado de Verão: "Os Chapéus de Chuva de Cherburgo" e "As Donzelas de Rochefort" regressam em cópias digitais restauradas — para reencontrar a magia do cinema musical segundo Jacques Demy.

A música e a magia de Jacques Demy
Catherine Deneuve em "Os Chapéus de Chuva de Cherburgo" — música e drama
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... e o grande acontecimento do Verão cinematográfico tem o nome de Jacques Demy! É verdade: através de reposições em cópias digitais restauradas podemos redescobrir dois títulos fundamentais de uma certa ideia francesa de musical: "Os Chapéus de Chuva de Cherburgo" (1964) e "As Donzelas de Rochefort" (1967). Com eles, Demy celebrou a sua filiação na grande tradição de Hollywood, ao mesmo tempo inventando um cinema cantado e encantado que, afinal, marcou de forma indelével os anos 60 da Nova Vaga.

"Os Chapéus de Chuva de Cherburgo" foi um acontecimento realmente excepcional no panorama francês da época. Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo eram o par romântico que vivia uma atribulada história de encontros e desencontros, encenada em cenários de cores exuberantes. Com música de Michel Legrand, colaborador regular de Demy, o melodrama dizia-se, literalmente, por música — e o filme foi a Cannes e arrebatou a Palma de Ouro.


"As Donzelas de Rochefort" não é exactamente o oposto, mas tem diferenças significativas. Desde logo, porque no seu centro estão duas personagens femininas, interpretadas pelas irmãs Catherine Deneuve e Françoise Dorléac (cerca de três meses depois da estreia, Françoise viria a falecer num acidente de automóvel, contava 25 anos). Depois, porque a trama sentimental está mais próximo dos padrões do cinema americano, aliás exemplarmente representado no elenco através de Gene Kelly e George Chakiris.


Meio século depois, um dos aspectos mais desconcertantes — e também mais fascinantes — deste cinema é a sua capacidade de transfiguração dos lugares. Mais exactamente, quer em Cherburgo, quer em Rochefort, Demy trata a cidade como um verdadeiro estúdio, a ponto de a luz natural ser integrada como elemento fulcral dos números musicais, do seu artifício mágico. Dir-se-ia que esté um mundo colado ao real, dele se libertando através da música.

Crítica de João Lopes actualizado às 23:33 - 17 agosto '17
publicado 23:23 - 17 agosto '17

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