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A política, a ditadura e o seu teatro

Utilizando imagens oficiais do Partido Comunista da URSS, Sergei Loznitsa evoca o funeral de Josef Estaline, em 1953: "Funeral de Estado" é uma impressionante desmontagem dos métodos de propaganda de um sistema totalitário.

A política, a ditadura e o seu teatro
Rostos da multidão: o filme de Sergei Loznitsa é um impressionante documento histórico
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 A política, a ditadura e o seu teatro
Funeral de Estado A partir de imagens de arquivo únicas, muitas inéditas, Loznitza retrata o funeral de Estaline como o culminar do culto à personalidade do ditador. A notícia da morte de Estaline, a 5 de Março de 1953, deixou em choque a União Soviética. Milhares de pessoas estiveram presentes nas cerimónias fúnebres. Observamos todas as etapas da cerimónia fúnebre, descrita pelo jornal Pravda como “a Grande ...

O menos que se pode dizer de "Funeral de Estado", de Sergei Losznitsa, é que se trata de um objecto documental que aplica uma estratégia narrativa rara. A saber: em vez de produzir elementos descritivos ("documentais", precisamente), todo o filme é construído a partir de materiais que não foram filmados pelo realizador, neste caso as "actualidades" soviéticas sobre o funeral de Josef Estaline, em março de 1953, obtidas pelos serviços de propaganda do Partido Comunista da URSS.

Lembro-me de dois exemplos, igualmente modelares, de tal estratégia. O primeiro, "Mao Tsé-Tung e a Revolução Cultural" (1976), tem assinatura do japonês Nagisa Oshima (creio que só terá passado uma vez em Portugal, no Festival da Figueira da Foz) — o realizador de "O Império dos Sentidos" (lançado no mesmo ano) assume a voz off do seu filme, num diálogo "directo" com Mao, descrevendo e questionando as suas acções políticas. O segundo, sem qualquer voz off, foi realizado por Andrei Ujica, intitula-se "Autobiografia de Nicolae Ceausescu" (2010) e desmonta o aparato teatral do ditador romeno, também a partir de registos do seu aparelho de propaganda.

Loznitsa segue um método semelhante ao de Ujica: acompanhamos os eventos públicos metodicamente organizados pelo aparelho de Estado soviético, desde o anúncio da morte do ditador até à caminhada da multidão a contemplar as flores acumuladas na Praça Vermelha, passando pelos discursos dos responsáveis do partido.

Assistimos, assim, a um verdadeiro teatro político, tanto mais impressionante quanto tudo acontece perante a silenciosa quietude de multidões literalmente geridas pela propaganda do Estado comunista — são múltiplos painéis de rostos, escutando um discurso tendencialmente religioso, santificando Estaline (e não há qualquer exagero na utilização da noção de santificação).

O documento é tanto mais impressionante quanto, poucos anos depois, em 1956, o 20º Congresso do Partido Comunista viria denunciar o "culto da personalidade" de Estaline, dando a conhecer o trágico inventário de milhões de mortos causados pelos seus métodos. Ou como o cinema sabe revisitar o património simbólico das imagens, ajudando-nos a compreender as convulsões da história.

Crítica de João Lopes
publicado 14:19 - 01 agosto '21

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