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À procura do destino perdido

A personagem central de "Patrick" vive um assombramento cujas raízes estão na infância — a longa-metragem de estreia de Gonçalo Waddington, protagonizada por Hugo Fernandes, envolve um desafio dramático pouco comum.

À procura do destino perdido
Hugo Fernandes e Alba Baptista: "Patrick" ou o difícil labirinto das relações humanas
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 À procura do destino perdido
Patrick Patrick (Hugo Fernandes) tem 20 anos e mora em Paris com o seu namorado mais velho. É administrador de um site de pornografia adolescente, que resulta numa sentença de prisão. Mário, 8 anos, foi sequestrado há 12 anos em Portugal. Patrick e Mário são a mesma pessoa com duas identidades conflitantes.

Desde os primeiros momentos, "Patrick" é um filme de um perturbante envolvimento emocional. Através do misto de resistência e vulnerabilidade que perpassa no rosto de Hugo Fernandes, intérprete de Patrick, pressentimos um assombramento cruel, porventura sem solução.

Vivendo em Paris, com o seu namorado mais velho, Patrick administra um site de pornografia adolescente. Quando é preso, instala-se um enigma que a sinopse oficial de imediato esclarece (o que, em termos meramente promocionais, talvez pudesse ter sido evitado). A saber: Patrick é Mário, sequestrado há 12 anos em Portugal...

Seja como for, esse é um pormenor, já que a longa-metragem de estreia de Gonçalo Waddington não se define como um vulgar mistério policial ("quem? como? onde?"), optando antes por um intimismo habitado por muitas emoções, contraditórias e convulsivas. Podemos até definir "Patrick" como a crónica de uma impossível coincidência: como reencontrar em Patrick a história de Mário?

Estamos perante um desafio dramático pouco comum. Assim, não se trata exactamente de regressar, numa espécie de resgate em modo de "flashback", à tragédia vivida pelo pequeno Mário, mas sim de perceber de que modo, ou até que ponto, Patrick transporta essa tragédia como componente visceral do seu presente, da sua frágil identidade.

Daí uma componente essencial da visão de Waddington. Chamemos-lhe uma crise de pertença. Ou em termos especificamente cinematográficos: "Patrick" é um filme de uma personagem em crise, "zombie-de-si-próprio", sempre em conflito, latente ou explícito, com os cenários por onde circula. Ou ainda: não uma personagem reduzida ao destino maniqueísta das ficções telenovelescas, antes alguém, carente de destino, do desejo de um destino, deambulando no mapa incerto da sua solidão.

Crítica de João Lopes actualizado às 19:29 - 23 julho '20
publicado 19:24 - 23 julho '20

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