Algumas memórias de Burt Reynolds
Burt Reynolds em "Fim de Semana Alucinante" — um grande filme de John Boorman

Obituário  

Algumas memórias de Burt Reynolds

Foi uma estrela que soube distanciar-se, com ironia, da sua própria dimensão mitológica: o actor americano Burt Reynolds faleceu aos 82 anos de idade.

A notícia do falecimento de Burt Reynolds — no dia 6 de Setembro, em Jupiter, Florida, vítima de problemas cardíacos, contava 82 anos — é um momento de paradoxal tristeza: é verdade que a sua longa filmografia, de quase duas centenas de títulos, está longe de ser um mar de rosas, mas não é menos verdade que Reynolds foi uma star capaz de viver o seu estatuto num permanente espírito de ironia, relativizando a própria mitologia em que estava inserido.

O convite de Paul Thomas Anderson para interpretar um realizador de filmes pornográficos dos anos 70 em "Boogie Nights/Jogos de Prazer" (1997) será o sintoma mais exemplar desse seu estatuto. De facto, não haveria muitos actores capazes de expor o negrume da personagem e do seu ambiente, ao mesmo tempo não rasurando as nuances da sua verdade humana. Foi, aliás, o papel que lhe trouxe maior reconhecimento no interior da comunidade cinematográfica — com ele ganhou um Globo de Ouro, obtendo ainda uma nomeação para o Oscar de melhor actor secundário.


Eis mais alguns títulos que podem definir um breve bilhete de identidade de Burt Reynolds:

* FIM DE SEMANA ALUCINANTE (1972) — "Deliverance" no original, é uma das grandes realizações do inglês John Boorman no interior do sistema de produção de Hollywood: a história de quatro amigos que decidem fazer uma viagem de prospecção e lazer num rio esquecido no mapa começa como uma descoberta fascinante da natureza para desembocar num espelho traumático das raízes civilizacionais da América — Burt Reynolds partilha o protagonismo com Jon Voight, Ned Beatty e Ronny Cox.

* A CIDADE DOS ANJOS (1975) —
Reynolds encontra Catherine Deneuve (numa das suas raras interpretações do interior da máquina de Hollywood): o resultado é um policial em que a noção de romantismo ainda faz sentido, doseando com elegância os momentos de tensão e os sinais de uma intimidade ameaçada. É, por tudos isso, um dos derradeiros exemplos de um classicismo que se reflecte em todos os elementos artísticos, incluindo a notável direcção fotográfica de Joseph F. Biroc. 

* O VENDEDOR DE SONHOS (1976) — Um dos mais divertidos e comoventes filmes de Peter Bogdanovich — intitulado, no original, "Nickleodeon", nele se propõe uma delicada evocação dos tempos heróicos dos pioneiros cinematográficos, com Reynolds a interpretar uma vedeta do cinema mudo cujo ego é um pouco maior do que o ecrã em que aparece — com Ryan O'Neal e a sua filha, Tatum O'Neal. 

* A CORRIDA MAIS LOUCA DO MUNDO (1981) — O célebre "Cannonball Run", dirigido por Hal Needham, é uma comédia literalmente sobre rodas cujo sucesso gerou várias sequelas; Reynolds contracenava com Roger Moore, Farrah Fawcett e Dean Martin, entre outros — o projecto é francamente menor, mas há que reconhecer que, na altura, as suas componentes burlescas o demarcavam, pelo menos, da degradação de muitas comédias (ditas) adolescentes.

* O JOGADOR (1992) —
Um dos mais ambiciosos, e também mais admiráveis, filmes de Robert Altman, exemplar na definição de uma teia de personagens e relações que serve de espelho cruel dos bastidores da produção cinematográfica em Hollywood: Reynolds assume o seu próprio papel no interior de um elenco de notáveis em que encontramos, entre muitos outros, Tim Robbins, Greta Scacchi, Whoopi Goldberg, Peter Gallagher e Vincent D'Onofrio.

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publicado 01:04 - 08 setembro '18

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