Almodóvar a imitar Almodóvar
Adriana Ugarte (à direita) é uma das duas actrizes que interpretam a Julieta de Almodóvar

Cannes 2016  

Almodóvar a imitar Almodóvar

Presença regular no Festival de Cannes, o espanhol Pedro Almodóvar está de regresso à Côte d'Azur com o melodrama "Julieta" — infelizmente, fica a sensação de que o cineasta se limita a copiar momentos (bem melhores) da sua filmografia.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Almodóvar a imitar Almodóvar
Julieta O duro percurso de uma mulher madrilena ao longo de trinta anos.

Que podemos esperar de um cineasta consagrado, reaparecendo no maior festival de cinema do mundo? Muitas coisas, por certo, não sendo a mais interessante a mera "cópia" dos sinais que o ajudaram a criar uma determinada imagem de marca.

Infelizmente, parece ser essa a atitude dominante no trabalho do espanhol Pedro Almodóvar no seu novo "Julieta", presente na secção competitiva de Cannes. O ponto de partida são três contos da "nobelizada" Alice Munro: para contar a história de uma mulher que tenta reencontrar a filha (com quem deixou de ter contactos há mais de uma década), Almodóvar repete as suas cores quentes e diálogos introspectivos, mas quase só o sentimos a tentar imitar os seus melhores momentos.

Seja como for, refira-se que o filme parte de uma curiosa solução de encenação, através da representação de Julieta através de duas actrizes, Emma Suárez e Adriana Ugarte, respectivamente para as cenas do presente e as evocações do passado. Lembramo-nos da solução de Luis Buñuel em "Este Obscuro Objecto do Desejo" (1977), com a mesma Conchita a ser interpretada, sucessivamente, por Carole Bouquet e Angelina Molina — mas o que, em Buñuel, se impunha como um dispositivo fantasmático, funciona em "Julieta" como um gadget linear.

Será este um fantasma de outro tipo? A saber: a tentativa de (re)afirmação de um cineasta através da evocação do seu próprio património. É bem certo que, depois do burlesco de "Os Amantes Passageiros", Almodóvar tenta reencontrar as suas mais genuínas raízes melodramáticas — mas persiste a sensação de uma cópia sem imaginação e, estranhamente, sem motivação.

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publicado 17:04 - 17 maio '16

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