BRANCO, Paulo
Cannes, 2012, estreia mundial de "Cosmopolis": Paulo Branco e Robert Pattinson

DVD Memória  

BRANCO, Paulo

Com mais de duas centenas e meia de filmes na sua trajectória, Paulo Branco tem desenhado um mapa cinematográfico e artístico que não conhece fronteiras — é possível percorrê-lo (também) através da música.

Quando descobrimos agora um filme como “A Herdade”, deparamos com a conjugação de duas trajectórias singulares: assim, reencontramos o gosto do realizador Tiago Guedes por uma respiração dramática e melodramática intensa, contagiante, visceralmente portuguesa; ao mesmo tempo, a simples existência de “A Herdade” reflecte o sentido de risco e experimentação que tem pontuado a trajectória do seu produtor, Paulo Branco — desde os remotos anos 80, através de filmes como “Francisca”, de Manoel de Oliveira, “Silvestre”, de João César Monteiro, ou “O Estado das Coisas”, de Wim Wenders — estes sons pertencem à banda sonora deste último título.


É um tema de uma velha raposa do “country rock”, o americano Joe Ely, integrado, precisamente, em “O Estado das Coisas”. Dir-se-ia que a avalanche de títulos produzidos por Paulo Branco — e convém não esquecer que são mais de duas centenas e meia —, embora especialmente ligada a Portugal e França, envolve essa capacidade de convocar muitas referências das mais contrastadas origens. Um exemplo sugestivo está em “Maine Océan”, produção de 1986 assinada por Jacques Rozier, um dos nomes mais esquecidos da geração da Nova Vaga francesa — aí podemos escutar “Meu Caro Amigo”, um clássico do brasileiro Chico Buarque.


Além de autores portugueses como Manoel de Oliveira, João César Monteiro ou João Botelho, o suíço Alain Tanner ou o alemão Wim Wenders, um dos cineastas com quem Paulo Branco manteve uma relação mais regular foi o chileno Raúl Ruiz. A sua colaboração desembocou, em 1999, no filme “O Tempo Reencontrado”, uma ambiciosa adaptação de Marcel Proust — aí escutávamos a música de outro chileno, Jorge Arriagada.


De todos os projectos a que o nome de Paulo Branco está ligado, “Cosmopolis”, do canadiano David Cronenberg, é, por certo, um dos mais radicais — e, a meu ver, também dos mais fascinantes. Estava-se em 2012: a adaptação do romance de Don DeLillo, com Robert Pattinson no papel central, possui a abstracção de um conto apocalíptico que, em qualquer caso, nos remete, ponto por ponto, para os impasses emocionais e filosóficos das nossas vidas contemporâneas. Na banda sonora de “Cosmopolis”, podemos escutar o tema “Mecca”, com assinatura de K’Naan, um rapper canadiano nascido na Somália.

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publicado 21:55 - 20 setembro '19

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