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"Bacurau": o filme brasileiro premiado em Cannes que não encontra distribuição em Portugal

A terceira longa de ficção de Kleber Mendonça Filho estreia de forma quase anónima, graças à boa vontade do cinema Trindade, no Porto.

Sucesso de bilheteira no Brasil (700 mil espectadores), grande prémio do júri no mais recente festival de Cannes, "Bacurau", do pernambucano Kleber Mendonça Filho, não encontrou distribuidor em Portugal. Chega esta quinta-feira a uma única sala de cinema, o Trindade, no Porto. Antes, o mesmo realizador assinara "Aquarius", que valeu a distinção de Sónia Braga como melhor atriz, também em Cannes, em 2016.

Ao mesmo tempo inspirado nos westerns, no suspense de John Carpenter e de outros cineastas dos anos 70 e 80, "Bacurau" é uma enorme mistura, reflexo do Brasil. Crítica social, chamada de atenção para o retorno de um racismo sem vergonha, dedo apontado aos clichés, ao branco rico e sofisticado do sul versus o pardo pobre e rural que fala engraçado do nordeste, repulsa pela entrega do país a interesses estrangeiros.

Passado numa pequena cidade fictícia no sertão brasileiro onde os habitantes descobrem que deixaram de constar em qualquer mapa, "Bacurau" começa com a morte da matriarca do povoado, Dona Carmelita, de 94 anos. Aos poucos, a população percebe que algo estranho está a acontecer, drones passeiam pelos céus e estrangeiros chegam à cidade. Quando os tiros começam e aparecem os primeiros cadáveres, as gentes de Bacurau descobrem que estão a ser caçados por puro divertimento e decidem organizar a sua defesa.

Kleber é assumidamente um realizador político numa sociedade polarizada, onde governa a extrema direita, reacionária, anti-intelectual e saudosista dos tempos da ditadura militar. Protestou em Cannes contra o golpe palaciano que tirou Dilma Rousseff do poder substituindo-a por Temer, voltou a protestar, agora em Marraquexe, contra a retirada de vários posters de filmes históricos do cinema brasileiro do edifício do Agência National do Cinema (ANCINE), o organismo público que coordena a atribuição de verbas públicas.

Tem-se feito ouvir na condenação dos cortes profundos infligidos por Bolsonaro nas verbas para a cultura, no cinema em particular, com a polémia Lei Rouanet que passa a limitar a um milhão de reais a comparticipação estatal em vez dos 60 milhões de reais anteriores e incorpora música e eventos de igrejas nos géneros culturais passíveis de apoio financeiro.

Nascido em Recife há 51 anos, Kleber Mendonça Filho viveu cinco anos em Inglaterra, mas voltou para estudar jornalismo. É crítico e responsável pela programação de cinema na Fundação Joaquim Nabuco, um dos maiores polos culturais da capital pernambucana. Nos anos 90 andou pelo vídeo, escreveu e realizou curtas documentais e de ficção. A aventura da realização em longo fôlego apareceu só em 2012 com "O Som ao Redor" que acabou por ser a escolha brasileira para tentar uma ida aos Óscares. Sucedeu-se "Aquarius" em 2016, primeiro filme brasileiro selecionado para a principal secção de Cannes em oito anos.

No verão esteve em Portugal para a apresentação de "Bacurau" no festival de curtas de Vila do Conde. Nem isso despertou a atenção e interesse dos distribuidores portugueses em mais um caso que revela as profundas inconsistências e falhas do setor onde, por mero exemplo, nesta mesma semana se lança um produto sem valor criativo, ou artístico, e reduzido valor comercial como é "The Corrupted", direto para VOD em quase todo o mundo.

"Bacurau" estreia esta quinta-feira no Cinema Trindade, no Porto, com três sessões diárias, às 15h00, 19h30 e 21h45.

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publicado 17:06 - 18 dezembro '19

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