Cannes esquece os italianos
Nanni Moretti e Margherita Buy, em "Mia Madre" — todos os italianos ficaram fora dos prémios

Cannes 2015  

Cannes "esquece" os italianos

A França ganhou vários prémios e a Itália ficou a... zero — com a Palma de Ouro atribuída a "Dheepan", de Jacques Audiard, o júri terá querido, antes do mais, sublinhar a importância de um cinema ligado a temas fortes da actualidade.

Artigo recomendado:
Cannes esquece os italianos
Cannes 2015
"Dheepan" de Jacques Audiard vence o Festival de Cannes 2015 A Palma de Ouro da 68ª edição do festival foi entregue ao filme francês sobre um antigo guerrilheiro que tenta adaptar-se à vida em França.

Há uma ironia paradoxal no palmarés do 68º Festival de Cannes. De facto, o júri presidido pelos irmãos Coen distinguiu os franceses, muito atacados internamente pela "qualidade" da respectiva representação, e deixou de fora os italianos, genericamente vistos como uma presença muito forte (inclusivamente visando já a temporada de prémios do final do ano).

Os franceses ganharam a Palma de Ouro, com "Dheepan", de Jacques Audiard, e surgem distinguidos nas duas categorias de interpretação, com Vincent Lindon e Emmanuelle Bercot (responsável pelo discurso mais longo, e também mais retórico, da cerimónia). Os italianos tinham o admirável Nanni Moretti ("Mia Madre"), e ainda Matteo Garrone ("Tale of Tales") e Paolo Sorrentino ("Youth"), mas... nada receberam.

É uma circunstância que não ilustra os tradicionais laços de colaboração entre as cinematografias francesa e italiana — muito simplesmente, como é normal nestas coisas, limita-se a reflectir a dinâmica de ideias de um júri recheado de personalidades fortes.

Registe-se, acima de tudo, que o júri orientou as suas escolhas também de modo a sublinhar a densidade temática dos filmes: actualidade absoluta no caso de "Dheepan", com a sua referência aos dramas dos refugiados (neste caso, vindos do Sri Lanka para França); importância simbólica, ideológica e política na visão do Holocausto contida em "Son of Saul", o filme do húngaro László Nemes que arrebatou o importante Grande Prémio (segundo na hierarquia do palmarés).

Enfim, sublinhe-se o facto de a cerimónia ter homenageado Agnès Varda, senhora de talento multifacetado, há cerca de seis décadas, desde os tempos heróicos da Nova Vaga, ligada à dinâmica interna do cinema francês. As suas palavras sobre Jacques Demy (1931-1990) — que ela já evocou no filme "Jacquôt de Nantes" (1991) — constituiram um momento genuinamente cinéfilo, sempre marcante num festival que quer, e sabe, preservar as memórias.

  • Cannes esquece os italianos
    Cannes 2015
    Nanni Moretti filma a chegada da morte
    Nanni Moretti traz a Cannes o seu filme mais recente: "Mia Madre" é a crónica de dois irmãos confrontados com a gravíssima doença da mãe — ...
por
publicado 23:23 - 24 maio '15

Recomendamos: Veja mais Artigos de Cannes 2015