Estreia  

Como filmar um ser diferente?

Baseado num romance de R. J. Palacio, "Wonder - Encantador" centra-se numa criança que nasceu marcada por uma doença rara — a sua diferença é um desafio para si e, em boa verdade, também para os outros.

Como filmar um ser diferente?
Julia Roberts e Jacob Tremblay — uma especialíssima relação mãe/filho
Crítica de
Subscrição das suas críticas
145
Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Como filmar um ser diferente?
Wonder-Encantador A inspiradora e emocionante história de August Pullman, um menino que nasceu com uma deformidade facial e, por esse motivo, sempre foi muito protegido e isolado da escola e das crianças da sua idade até ao dia em que Auugie se torna o mais improvável dos heróis ao entrar pela primeira vez, no 5º ano de escolaridade, numa escola pública…e sente-se apavorado! Assim como a sua família, os seus novos ...

Como figurar um ser realmente diferente, fisicamente diferente, sem ceder a nenhum dos preconceitos mais correntes? Como fazê-lo sem promover uma espécie de "inocência" abstracta, supostamente associada à diferença? Como encenar essa diferença sem atrair uma qualquer noção, "positiva" ou "negativa", de monstruosidade?

Lançado entre nós com o subtítulo "Encantador", o filme "Wonder" contém uma bela resposta a tais interrogações. Nele encontramos um menino realmente diferente: Auggie (o magnífico Jacob Tremblay que conhecemos de "Quarto", de 2014, contracenando com Brie Larson) nasceu com disostose mandibulofacial, doença que deforma o crânio e o rosto, obrigando a uma série de intervenções cirúrgicas, não apenas por razões estéticas, mas para repor o bom funcionamento de vários órgãos, incluindo os olhos e a boca.

Auggie viveu os primeiros anos da sua existência protegido no espaço familiar, com a própria mãe (Julia Roberts, numa composição que lhe poderá trazer mais uma nomeação para um Oscar) a assumir as funções de sua professora — trata-se, agora, de entrar na escola oficial, com todos os confrontos, nem sempre muito acolhedores, que tal implica... Pois bem, o filme sabe contar/encenar tudo isso através de uma depuração formal e emocional em que aquilo que mais conta são as singularidades de cada personagem — não apenas de Auggie, mas de todos os que com ele se relacionam.

Estamos perante um modelo de grande e sedutora austeridade clássica que o realizador Stephen Chbosky trabalha com invulgar precisão, celebrando um cinema de facto "character driven" — são as personagens (neste caso, sobretudo, Auggie) que motivam as direcções e directrizes da narrativa, de acordo com uma lógica que leva o espectador a compreender os pontos de vista dessas personagens. A esse propósito, convém referir que Chbosky é também autor do argumento, com a colaboração de R. J. Palacio, autora do romance em que o filme se baseia.

Crítica de João Lopes
publicado 19:12 - 07 dezembro '17

Recomendamos: Veja mais Críticas de João Lopes