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Documentando o culto de Sousa Martins

José Tomás de Sousa Martins foi um médico português do século XIX célebre pelo seu humanismo — o documentário "Sousa Martins", de Justine Lemahieu, dá conta do culto que se construiu em torno da sua memória.

Documentando o culto de Sousa Martins
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Até que ponto a memória de uma figura pública se pode transformar num fenómeno de culto? Mais do que isso: como é que esse culto, consolidado pelo tempo e pelos rituais, se assemelha aos mecanismos de algumas religiões?

É dessas perguntas que parte o documentário português "Sousa Martins", assinado por Justine Lemahieu, uma cineasta francesa há alguns a trabalhar em Portugal. E o mínimo que se pode dizer é que o filme cumpre uma curiosa função informativa e, de alguma maneira, jornalística.

Será que fenómenos como o culto de José Tomás de Sousa Martins (1843-1897) funcionam como uma espécie de compensação "social" para o enfraquecimento simbólico das religiões ao longo do século XX? O filme formula a pergunta, evitando qualquer resposta definitiva e optando por uma dimensão de grande sobriedade descritiva.


Trata-se, assim, de dar conta do modo como a figura do médico de Alhandra — célebre pela sua competência, humanismo e também pela imensa disponibilidade para ajudar os mais pobres — se foi instalando no imaginário português através de um singular processo de "santificação". Especialmente reveladoras são as situações captadas em Lisboa, no Campo dos Mártires da Pátria, em torno da estátua de Sousa Martins.

Acima de tudo, a câmara de Lemahieu privilegia a amostragem de modos de comportamento e objectos (muitos e, por vezes, incríveis objectos) que reflectem o sistema de crenças e anseios construído em torno da herança de Sousa Martins. Na sua simplicidade, sustentada por uma voz off por vezes algo redundante, "Sousa Martins" possui qualquer coisa de didáctico — trata-se de nos ajudar a olhar o quotidiano para além da qualquer eventual tentação pitoresca.

Crítica de João Lopes
publicado 18:13 - 08 agosto '19

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