Ele, ela e o fantasma

O francês Benoît Jacquot volta a explorar os mecanismos melodramáticos através da adaptação de um texto de Don DeLillo — "Até Nunca" é uma história de amor assombrada pelo mundo dos fantasmas.

Ele, ela e o fantasma
Mathieu Amalric e Julia Roy — recriando cinematograficamente um texto de Don DeLillo
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 Ele, ela e o fantasma
Até Nunca Laura e Rey vivem numa casa à beira-mar. Ele é cineasta, ela cria “performances” em que é a atriz. Rey morre – acidente, suicídio? – , deixando-a só nesta casa. Mas depressa ela deixa de estar sozinha. Está lá alguém. É Rey, que está lá por ela e para ela, como um sonho mais longo que a noite, para que ela sobreviva.

Neste mundo cinematográfico em que só as aventuras de super-heróis parecem desfrutar de verdadeira protecção comercial, será que ainda há espaço para um melodrama "à moda antiga", construído a partir de uma relação amorosa assombrada por medos e fantasmas? O francês Benoît Jacquot e o português Paulo Branco acreditam que sim — o primeiro realizou e o segundo produziu "Até Nunca".

O desafio não é pequeno. Trata-se de adaptar a novela "The Body Artist", de Don DeLillo, construída em torno de um par formado por um cineasta e uma actriz (edição portuguesa: "O Corpo enquanto Arte", Relógio d'Água). Esse par sobrevive, por assim dizer, para além da morte — depois do falecimento dele, ela insiste em continuar a morar na casa isolada que habitavam, começando a "conviver" com uma entidade fantasmática que parece recuperar aquele que está irremediavelmente ausente...

Rodado em cenários portugueses, o filme constrói-se como um exercício de suspense em que, de facto, jogando com as palavras, apetece dizer que tudo está suspenso: a fronteira entre real e imaginação, concreto e abstracto, parece ter sido aberta à circulação de todos os desejos, como se já não fosse possível ter a certeza da intensidade da vida face ao silêncio radical da morte.

Curiosamente, o texto de DeLillo foi adaptado por Julia Roy, a actriz que contracena com Mathieu Amalric. Metodicamente dirigidos por Jacquot, eles assumem as suas personagens também num ziguezague insólito entre os gestos naturais e os movimentos de uma transcendência que ninguém consegue definir — o espectador é, enfim, convocado para entrar no visível do cinema como quem acede a um país invisível.

Crítica de João Lopes
publicado 23:45 - 29 dezembro '16

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