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Frankenstein ou o monstro que nasceu da escrita

Desta vez, o mito de Frankenstein não surge através do seu monstro, mas sim do trabalho da autora do romance original: com Elle Fanning no papel central, "Mary Shelley" é um filme para revalorizar o labor e o desejo da escrita.

Frankenstein ou o monstro que nasceu da escrita
Elle Fanning no papel de Mary Shelley — escrever ou não escrever, eis a questão
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 Frankenstein ou o monstro que nasceu da escrita
Mary Shelley MARY SHELLEY conta a história de Mary Wollstonecraft Godwin (Elle Fanning) – autora de “Frankenstein”, um dos romances góticos mais famosos de sempre - e a sua intensa e tempestuosa relação com o conhecido poeta romântico Percy Blysshe Shelley (Douglas Booth). Os dois sentem-se marginais em espirito, afastados da sociedade opressiva e controladora onde vivem, mas unidos por uma química natural ...

Eis um objecto, no mínimo, desconcertante: uma narrativa que evoca a mitologia de Frankenstein, mas não através dos muitos filmes que gerou, desde os tempos heróicos de Boris Karloff, antes concentrando-se na sua autora, Mary Shelley. Mais do que isso: esta é uma coprodução europeia (Irlanda/Luxemburgo/Reino Unido), com Elle Fanning, uma americana, a interpretar o papel central e realização assinada por Haifaa Al-Mansour, cineasta nascida na Arábia Saudita.

Já conhecíamos Al-Mansour através de "O Sonho de Wadjda", além do mais, uma obra histórica, já que se trata da primeira longa-metragem assinada por uma mulher da Arábia Saudita. E mesmo se estamos perante um projecto com muitas e inevitáveis diferenças, o certo é que "Mary Shelley" reflecte a mesma vontade de dar conta de singulares destinos femininos.

Convém não esquecer que, na sociedade britânica do começo do século XIX, publicar um romance como "Frankenstein", sobre os monstros da razão humana, não era coisa óbvia para uma mulher — para mais uma mulher de 20 anos. Daí que a primeira edição (lançada em 1818) tenha surgido como obra anónima... O filme de Al-Mansour é, justamente, sobre esse contexto em que a escrita podia ser um singular gesto de liberdade e libertação.

O maior mérito do filme é a sua capacidade de definir um universo intimista em que Mary Shelley, através da delicada composição de Fanning, surge como uma mulher que não abdica do seu projecto de escrita, mesmo que isso possa ser tido pelos valores dominantes como coisa excêntrica ou dispensável. O resultado é um filme que, com assinalável sobriedade, nos relembra o misto de labor e desejo de que se faz a escrita.

Crítica de João Lopes
publicado 23:45 - 28 junho '18

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