GODARD x 3
"Pedro, o Louco": Jean-Paul Belmondo a contas com o fim do romantismo

DVD Memória  

GODARD x 3

Na história moderna do cinema, filmes de Jean-Luc Godard como "O Acossado" ou "Pedro, o Louco" são momentos incontornáveis — afinal de contas, por aí passou uma interrogação cinéfila cujos valores continuam a ecoar em "O Livro de Imagem".

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A história do cinema não é linear. Vemos muitos filmes dos nossos dias e deparamos apenas com narrativas velhas, ressentidas, anquilosadas, por vezes tentando disfarçar a falta de ideias com a ostentação da técnica. Ao mesmo tempo, acompanhamos cineastas que não desistem de filmar interrogando o cinema e, sobretudo, perguntando qual a sua relação com o nosso viver, com o nosso morrer — aos 88 anos, Jean-Luc Godard é, continua a ser, um desses cineastas.

O novíssimo filme de Godard chama-se “O Livro de Imagem”. E não há maneira de escaparmos à enigmática sedução do título. Desde logo, um filme que se intitula, que se auto-intitula, um livro; depois, não um livro de imagens, no plural, mas sobre a singularidade da imagem — “O Livro de Imagem”. Trata-se, afinal, de reflectir sobre o modo como o império contemporâneo da imagem ameaça destruir o valor primordial do livro, da escrita, quer dizer, da palavra.

Tempos houve em que Godard filmou pares românticos — ou melhor, homens e mulheres feridos pela mágoa de ser impossível reencontrar um romantismo redentor. "O Acossado" (1959) e "Pedro, o Louco" (1965) são exemplos modelares da sua lógica criativa, momentos emblemáticos a "Nouvelle Vague", ambos agora de novo disponíveis em edições em DVD.

Em "O Acossado", ele possui a mágoa nostálgica de não poder ser uma reencarnação de Humphrey Bogart; ela vende o “New York Herald Tribune” nos Campos Elísios, dir-se-ia um anjo triste que desceu à Terra para inventariar as contradições dos pobres humanos — ele é Jean-Paul Belmondo, ela Jean Seberg.

 
Restos de um sonho clássico... Num certo sentido, o sonho acabou meia dúzia de anos mais tarde, com outro filme sublime: “Pedro, o Louco”, de novo com Jean-Paul Belmondo, agora na companhia de Anna Karina, é o filme do fim de todos os romantismos — o par encontra um mundo em que a aventura está ferida pelo conformismo, formatada pela publicidade, destruída pelo consumo. Apesar disso, nesses tempos heróicos, as canções de amor ainda eram possíveis — na voz de Anna Karina, precisamente, então casada com Jean-Luc Godard.

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publicado 17:21 - 13 dezembro '18

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