Jerry Lewis — morreu um génio do cinema americano
"As Noites Loucas do Dr. Jerryll" (1963) — ou "O Médico e o Monstro" revisto por Jerry Lewis

Obituário  

Jerry Lewis — morreu um génio do cinema americano

Actor e realizador, produtor e filantropo, companheiro de Dean Martin e criador de uma filmografia pessoalíssima, Jerry Lewis está no centro da história moderna do cinema americano — faleceu, de causas naturais, aos 91 anos de idade.

Há muito com a saúde debilitada, Jerry Lewis faleceu no domingo, 20 de Agosto, na sua casa de Las Vegas — nascido em Newark, a 16 de Marco de 1926, contava 91 anos.

Desaparece, assim, uma personalidade central, não apenas na história da comédia, mas em boa verdade na história de toda a modernidade do cinema americano. Começou por ser muito popular através dos filmes em que formou uma dupla inequecível com Dean Martin — e foram dezassete, de "A Minha Amiga Irma" (1949), de George Marshall, a "Um Espada para Hollywood" (1956), de Frank Tashlin, passando por "O Rei do Circo" (1954), de Joseph Pevney, e "Pintores e Raparigas" (1955), também de Tashlin, porventura o melhor de todo este período.

Em 1960, em particular motivado por Tashlin, começou a dirigir, realizar e produzir os seus filmes, assinando um ciclo de notáveis comédias, de "Jerry no Grande Hotel" (1960) a "Onde Fica a Guerra" (1970). São filmes de espantosa transfiguração do próprio Jerry — como "As Noites Loucas do Dr. Jerryll" (1963), recriando os temas do clássico "O Médico e o Monstro", ou "Jerry e os Seis Tios" (1965), em que assume nada mais nada menos que sete personagens.

Através da sua obra, Jerry soube tratar de forma genial, num misto de ternura e crueldade, os valores da América tradicional e do "Sonho Americano", numa visão que, afinal, o coloca exactamente a par de autores que começaram a realizar filmes também ao longo dos anos 60, como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese ou Michael Cimino. É um corpo de filmes cujas proezas de mise en scène surgem com frequência associadas a sofisticados trabalhos de estúdio — "O Homem das Mulheres" (1961) poderá servir de exemplo modelar [trailer].


O certo é que, com as transformações do sistema de estúdios e do próprio mercado de distribuição/exibição, Jerry sentiu cada vez mais dificuldades na concretização dos seus projectos, não deixando de se mostrar desencantado com a lógica comercial de tais transformações. Assinou apenas mais dois títulos como realizador — "Vai Trabalhar, Malandro!" (1980) e "Smorgasbord" (1983) —, embora nunca sendo esquecido por muitos profissionais de Hollywood. Em 1982, Martin Scorsese convidou-o mesmo a protagonizar "O Rei da Comédia", contracenando com Robert De Niro [video com apreciação crítica de A. O. Scott, de "The New York Times"].
 

Quase sempre mais reconhecido na Europa do que nos EUA — entre as muitas distinções que recebeu inclui-se o grau de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra do estado francês, atribuído em 1984 —, o certo é que Jerry permaneceu no coração do público americano, liderando ao longo de 46 anos (até 2014) uma maratona televisiva (telethon) para angariação de fundos a favor do tratamento de crianças com distrofia muscular.

Publicou o livro "The Total Film-Maker" (1971), dedicado aos seus conceitos e técnicas de realização. Evocou a sua relação profissional e privada com Dean Martin em "Dean & Me (A Love Story)" (2005), escrito com a colaboração de James Kaplan.
 
Em 2009, a Academia de Hollywood distinguiu-o com o prémio humanitário Jean Hersholt. Em 2013, foi homenageado no Festival de Cannes, por ocasião da passagem de "Max Rose" (2013), de Daniel Noah, o último filme em que assumiu papel de protaganista — foi também uma das suas derradeiras cerimónias públicas.

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publicado 23:58 - 20 agosto '17

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