Landau, Romero e os anos 60
Martin Landau em "Intriga Internacional" (1959), de Alfred Hitchcock

Hollywood  

Landau, Romero e os anos 60

Face ao desaparecimento de George A. Romero e Martin Landau, somos levados a revisitar os anos 60 em que ambos se afirmaram — e a observar as convulsões para lá das lendas.

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Estranha e perturbante coincidência das notícias — no espaço de poucas horas, soubemos do falecimento de duas figuras com dimensão lendária na história do cinema: o realizador George A. Romero e o actor Martin Landau.

Os retratos lendários são directos e incontornáveis: com "A Noite dos Mortos Vivos" (1968), Romero tornou-se o pai dos zombies cinematográficos, com significativa descendência até ao actual "The Walking Dead"; por sua vez, Landau foi um caso invulgar do "eterno secundário" que passou incólume da televisão para o cinema, arrebatando, aliás, um Oscar de melhor actor secundário graças a "Ed Wood" (1994), de Tim Burton.

Mas para além da lenda, está o território criativo em que ambos se afirmaram. A saber: os convulsivos anos 60, numa altura em que todas as variações pareciam possíveis — ou, pelo menos, era possível imaginá-las.

Os sixties foram, de facto, um tempo em que a decomposição das estruturas clássicas dos estúdios de Hollywood abriu portas às mais inusitadas variações. Para nos ficarmos pelo ano do já citado clássico de Romero, lembremos que 1968 foi também a data em que surgiu "2001: Odisseia no Espaço", de Stanley Kubrick — em boa verdade, a problematização do factor humano contaminava todas as frentes, da série B às superproduções.

É interessante recordar que Landau ganhou o seu Oscar interpretando a figura de Bela Lugosi, símbolo do cinema de terror dos anos 30 — como se se tratasse de prolongar uma certa herança das margens da grande indústria. De qualquer modo, a sua arte de representação, minimalista e geométrica, está exemplarmente condensada na série "Missão Impossível" (1966-1973), em que contracenava com outros actores "condenados" a uma certa secundarização, como Barbara Bain e Peter Graves — sem esquecer que surgiam enquadrados pela prodigiosa música de abertura de Lalo Schifrin.


Dir-se-ia que, mesmo através de carreiras obviamente muito diferenciadas, Romero e Landau emergiram de um cinema que, para o melhor ou para o pior, com consciência dramática ou ligeireza fútil, ia desafiar todas as suas bases clássicas.

Ironicamente, Landau provém desse classicismo, ele que, ainda antes de "Missão Impossível", já tinha trabalhado, por exemplo, sob a direcção de Alfred Hitchcock ("Intriga Internacional", 1959) ou Joseph L. Mankiewicz ("Cleópatra", 1963). Quanto a Romero, os seus "mortos-vivos" revelar-se-iam cúmplices da sensibilidade de cineastas como Brian De Palma ou Jonathan Demme. Ou ainda, claro, David Cronenberg — a prova: este documentário, "David Cronenberg and the Cinema of the Extreme", emitido pela BBC em 1997.

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publicado 23:55 - 17 julho '17

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