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Memórias de brancos e índios

Taylor Sheridan, argumentista de "Hell or High Water", surge agora a dirigir "Wind River", com Jeremy Renner e Elizabeth Olsen — um western vivido e encenado no tempo presente.

Memórias de brancos e índios
Para além da natureza — Taylor Sheridan durante a rodagem de "Wind River"
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 Memórias de brancos e índios
Wind River WIND RIVER é um thriller que se centra na história de uma nova agente do FBI, Jane Banner (Elizabeth Olsen), que junta forças com um caçador local atormentado pelo passado (Jeremy Renner) para investigar um homicídio ocorrido numa remota Reserva de Nativos Americanos. Com o decorrer da investigação, Jane espera conseguir vingar a morte da vítima, uma jovem rapariga. Escrito e realizado por Taylor ...

O novo filme escrito e realizado por Taylor Sheridan, "Wind River", pode ser descrito por uma expressão que, afinal, não é nova: um western contemporâneo. De facto, faz sentido estabelecer algum paralelo com outros momentos em que foi especialmente pertinente essa ideia de um western "adaptado" ao presente da sua própria produção.

Pensamos, assim, nos westerns historicamente cépticos dos anos 60/70, incluindo os magníficos "O Homem que Matou Liberty Valance" (John Ford, 1962), "A Quadrilha Selvagem" (Sam Peckinpah, 1969) e "O Pequeno Grande Homem" (Arthur Penn, 1970). Dito de outro modo: tal como em "Hell or High Water" (2016), de David Mackenzie — que valeu a Sheridan uma nomeação para o Oscar de melhor argumento original —, as matrizes clássicas do western servem, aqui, para revisitar as tensões internas da história dos EUA.

Daí o ziguezague temporal de "Wind River": por um lado, tudo acontece no presente, na reserva de Wind River, no estado do Wyoming, na sequência do assassinato de uma jovem índia; por outro lado, a investigação desenvolvida por uma agente do FBI (Elizabeth Olsen), com a ajuda de um caçador local (Jeremy Renner), vai sendo assombrada pelas memórias mais trágicas das relações entre brancos e índios — em especial pelas marcas da pressão para abandonar os seus territórios naturais, a que várias tribos de índios foram sujeitas.

Por vezes correndo o risco de resvalar da crueza da sua história para um "simbolismo" redutor, o filme de Sheridan consegue, em qualquer caso, preservar o essencial do seu projecto. A saber: uma revisitação da natureza made in USA — sublinhe-se a importância decisiva da direcção fotográfica de Ben Richardson —, nela descortinando o que já não é natural, antes decorre das convulsões da própria história colectiva. Em resumo: um filme de 2017, serenamente atípico, dentro e fora do seu tempo.

Crítica de João Lopes
publicado 22:33 - 18 agosto '17

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