Estreias  

Na solidão de Petra

Não acontece todos os dias, mas quando acontece importa celebrá-lo: "Petra" é um objecto admirável de uma cinematografia (espanhola) que tão mal conhecemos, confirmando o talento invulgar do seu realizador, Jaime Rosales.

Na solidão de Petra
Bárbara Lennie compõe, com infinita subtileza, a personagem de Petra
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10 + de 2008 por João Lopes Afinal de contas, onde está o cinema: nas salas ou no DVD?

Cinema espanhol?... Convenhamos que há uma inércia mediática que nos leva a pensar de imediato em Pedro Almodóvar, supondo que o o resto é deserto... Nada disso invalida os méritos do autor de "Dolor y Gloria" (o mais recente e magnífico trabalho de Almodóvar, recentemente revelado em Cannes), mas importa alargar os nossos horizontes. E é isso, precisamente, que o mercado agora nos permite através da estreia do prodigioso "Petra", de Jaime Rosales.

Já conhecíamos Rosales através de outro título brilhante, "A Solidão" (2007), uma visão clínica de um quotidiano que se ia desmanchando para lá das aparências, revelando os seus fantasmas e recalcamentos. Há algo de semelhante neste "Petra", centrado na personagem de uma mulher, interpretada com infinita subtileza por Bárbara Lennie, que procura encontrar a verdade de um passado familiar que a fez chegar à maturidade adulta sem saber quem é o seu pai.


Para tentar desvendar a identidade do pai, Petra cumpre uma residência artística no atelier de um artista consagrado, desse modo regressando a uma zona (arredores de Girona, na Catalunha) onde pensa encontrar as raízes da sua história. O processo de investigação do seu próprio passado, afinal disperso e etéreo, vai-se tornando tanto mais perturbante quanto Rosales nos apresenta as suas linhas dramáticas através de uma narrativa não linear em que predominam a surpresa e o suspense.

Deparamos, assim, com um método tão paradoxal quanto fascinante (detectável em exemplos das mais diversas cinematografias): por um lado, "Petra" é um filme capaz de, sem preconceitos, reavivar matrizes psicológicas que provêm no mais depurado, e também mais clássico, melodrama; por outro lado, esse classicismo não contraria, antes potencia, um invulgar e contagiante sentido de procura e invenção. Em resumo, não estamos apenas perante um notável filme espanhol — esta é também, no contexto português, uma das grandes estreias de 2019.

Crítica de João Lopes
publicado 23:12 - 06 julho '19

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