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Natureza, matéria e espírito

Do alinhamento do Festival de Cannes de 2020 (não realizado, devido à pandemia), descobrimos agora um belo título da produção da Bulgária: "Fevereiro" é o retrato de uma vida em três tempos dramáticos.

Natureza, matéria e espírito
A infância de Petar, ou um realismo à beira do onírico
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Podemos definir "Fevereiro", de Kamen Kalev, a partir de uma envolvente dialéctica. Assim, quase tudo o que nele acontece passa pela evidência — e, apetece dizer, pela luminosidade — dos elementos naturais; ao mesmo tempo, quanto mais a narrativa avança mais sentimos que a figura central, Petar, é alguém que nos escapa, por assim dizer, preservando um enigma de que ele a matéria e o espírito.

Tendo integrado a selecção oficial de Cannes 2020 (o festival que, recorde-se, não se realizou devido à pandemia), este é um belo exemplo de um cinema búlgaro que, para nós, possui também qualquer coisa de enigmático. Até porque a referida dialéctica passa pela presença de elementos paisagísticos cujo realismo parece atrair uma dimensão fantástica ou onírica.

A subtileza da encenação de Kalev consegue transfigurar os detalhes específicos da cultura búlgara em elementos que, em última instância, alcançam uma significação universal. A "trilogia" que o filme contém — acompanhando Petar na infância, na juventude e na velhice — possui a singular energia de uma vida de muitas limitações, mas conciliada com os contrastes da mãe natureza.

Crítica de João Lopes
publicado 01:08 - 16 agosto '21

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