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O 25 de abril em tom de "comédia de costumes"

Com "Prazer, Camaradas!", José Filipe Costa revisita o tempo em que jovens vindos do estrangeiro chegaram a Portugal para conhecer a revolução... Um belo exercício de questionamento histórico, subtil e pleno de humor.

O 25 de abril em tom de comédia de costumes
"Prazer, Camaradas!" ou os ziguezagues do tempo
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 O 25 de abril em tom de comédia de costumes
Prazer, Camaradas! Em 1975, no Portugal pós-revolução de Abril, uma mulher e dois homens - Eduarda Rosa, João Azevedo e Mick Geer - viajam da Europa do Norte para trabalharem nas cooperativas das herdades ocupadas no Ribatejo. Como muitos outros, ajudam nas actividades rurais e pecuárias, dão consultas médicas, aulas de planeamento familiar, mostram filmes de educação sexual e ...

De que falamos quando falamos do 25 de Abril? Eis uma questão básica, de uma só vez histórica e simbólica, que justifica algo mais do que uma resposta "panfletária". Em termos cinematográficos, entenda-se. Trata-se, sobretudo, de saber que linguagens usamos para preencher e, de alguma maneira, resgatar a distância que nos separa dos eventos que puseram fim à ditadura do Estado Novo.

"Prazer, Camaradas!" é um filme que adopta uma estratégia tão inesperada quanto envolvente, até porque há nele uma dinâmica de "comédia de costumes" que lhe confere um humor insólito e contagiante. O objectivo é evocar o envolvimento de jovens vindos do estrangeiro com aqueles que, nas cooperativas de herdadas ocupadas, protagonizavam a ideia, e o ideal, de construir novas formas de vida.

A realização de José Filipe Costa distancia-se dos lugares-comuns "ilustrativos", banalmente televisivos, quase sempre guiados por uma cândida cegueira artística: bastaria "reconstituir", "imitando", para nos ser devolvida a verdade original dos acontecimentos. Ora, aqui, tudo se baralha — e esclarece — porque os "velhos" de hoje estão a interpretar os "novos" de há quase meio século. Como num espelho.

Talvez importe não dizer mais do que isto, de modo a não esvaziar o calculado efeito de surpresa que o filme explora no seu lançamento... Sublinhe-se apenas que "Prazer, Camaradas!" estabelece esse ziguezague passado/presente através de um riso saudável, capaz de lidar com as convulsões de tudo o que aconteceu.

Nessas convulsões inclui-se um repensar da sexualidade e, mais do que isso, um leque de dúvidas e interrogações sobre o lugar prático & simbólico das mulheres face às regras e mecanismos do poder masculino. Nesta perspectiva, este é um filme que consegue algo cada vez mais raro: não a identificação escapista de "culpados", mas uma memória de muitos contrastes — por vezes comovente, outras irresistivelmente sarcástica — reflectindo todas as inocências perdidas.

Crítica de João Lopes
publicado 22:57 - 20 maio '21

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