O MENSAGEIRO (1971)
Julie Christie em "O Mensageiro", Palma de Ouro de Cannes

Memória  

O MENSAGEIRO (1971)

Com Julie Christie, Alan Bates e o estreante Dominic Guard, "O Mensageiro" é um dos momentos fundamentais da filmografia europeia do americano Joseph Losey.

Joseph Losey — eis um nome que marcou a reabertura das salas de cinema, pós-confinamento. O cineasta americano que saiu dos EUA por causa das perseguições do período maccartista viria a ter na Europa um capítulo essencial do seu trabalho. "O Criado", de 1963, é um título decisivo desse capítulo, mas não há dúvida que o filme mais célebre do Losey “europeu” só apareceria em 1971 — ganhou o Festival de Cannes desse ano e chama-se "O Mensageiro".

“O passado é um país estrangeiro — aí, as coisas acontecem de maneira diferente”. "O Mensageiro" começa sob o signo da memória. Esse desejo de revisitar algo que se perdeu, algo impossível de repetir, seja qual for a intensidade da memória, surgia enquadrado pela música de Michel Legrand: uma música quase romântica, quase angustiada, perfeita no interior da dramaturgia de Joseph Losey. Dito de outro modo: um romantismo assombrado pelos seus fantasmas.
 

Há um segredo, de facto, uma paixão escandalosa entre duas personagens de mundos separados: ele é o encarregado de uma quinta, interpretado por Alan Bates; ela é uma dama da aristocracia, Julie Christie — o jovem mensageiro, assumido pelo estreante Dominic Guard, vai andar em ziguezague entre um e outro, levando as cartas que testemunham o seu amor proibido pelas regras sociais. Como sempre, Joseph Losey é um retratista de tudo aquilo que, para além de qualquer ilusão naturalista, separa os seres humanos.

"O Mensageiro" ficou como exemplo de uma certa tendência revivalista do cinema europeu dos anos 70, embora distante das convenções de outros títulos que seguiram a mesma lógica. Fundamental na sua ficha técnica é o nome de Harold Pinter, responsável pelo argumento, baseado no romance homónimo de L. P. Hartley — uma história, enfim, sobre a possibilidade (ou talvez, a impossibilidade) de no meio da hipocrisia social ainda haver figuras angelicais. Na banda sonora, a ária “Angels Ever Bright and Fair”, de Handel, pontuava essa divina ilusão — recordamo-la, aqui, na voz da mezzo-soprano americana Lorraine Hunt Lieberson.
 

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publicado 21:13 - 05 novembro '21

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