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O melhor do essencial Joseph Losey

O "cinema livre" de um dos cineastas mais marcantes da segunda metade do século XX é alvo de um ciclo com seis das suas obras mais importantes, em cópias restauradas.

Nascido nos Estados Unidos, mas obrigado a emigrar para a Europa a fim de escapar à perseguição na era mccarthista, Joseph Losey (1909-1984) viria a estabelecer-se em Inglaterra, refazendo a carreira em Londres, onde acabou por realizar várias das suas obras maiores, moldadas pelo exílio e pelo reforço da identificação com personagens marginais.

Surpreendente e inventivo, com uma energia subversiva, Losey encaixou-se de forma perfeita nos Angry Young Man e na Nova Vaga do cinema britânico, com os seus temas sombrios, protagonistas da classe média e operária e valores socialistas. Harold Pinter foi um amigo e colaborador próximo. Trabalhou com actores como Dirk Bogarde, Michael Redgrave, Stanley Baker, James Fox, Sarah Miles, Jeanne Moreau, Delphine Seyrig, Monica Vitti, Michael Caine, Julie Christie, Elisabeth Taylor, Mia Farrow, Robert Micthum, Isabelle Huppert, ou Alain Delon.

O ciclo com que a Leopardo Filmes marca a reabertura das salas de cinema, a partir de 19 de Abril, inclui a exibição, primeiro no cinema Medeia Nimas, em Lisboa, e depois em várias salas do país, de seis das suas obras mais importantes,em cópias digitais restauradas.

Prisão Maior (The Criminal), de 1960

Johnny Bannion (Stanley Baker) é o preso mais respeitado numa prisão de alta segurança. Planeia um golpe para quando sair, um grande assalto a uma pista de corridas. Mas os tempos mudaram,e o estatuto de Johnny no submundo do crime já não é suficiente para impedir o seu regressoà prisão. Retrato de um personagem e da sua capacidade de sobrevivência numa sociedade onde nunca encontrará o seu lugar. Um dos filmes mais complexos e brilhantes de Losey, e, de certo modo, marcará a sua obra a partir daqui.

Eva (versão do realizador), de 1962

Thriller erótico inspirado no romance homónimo de James Hadley Chase, é uma das obras maiores de Losey. Na altura, os produtores do filme, os irmãos Hakim, obrigaram o realizador a reduzir a sua duração, primeiro para a estreia no festival de Veneza, depois, ainda mais, para a estreia em sala. Losey quis restaurá-lo com a duração inicial, mas os Hakim disseram-lhe que o material eliminado se perdera. Foi encontrado há poucos anos e objecto do magnífico restauro que agora finalmente iremos ver. É o filme mais ferozmente pessoal do realizador, no qual tenta “expulsar os seus demónios”.

O Criado (The Servant), de 1963

Hugo (Dirk Bogarde) é um criado que gradualmente manipula o seu patrão (James Fox) a resignar-se a uma posição de subserviência, num exercício alucinado de subversão das relações de poder tradicionais. Drama psicológico envolto num ambiente claustrofóbico, o filme é um ataque directo ao sistema de classes e à fragilidade da aristocracia inglesa. Com argumento de Harold Pinter (na primeira de três colaborações cinematográficas entre o célebre dramaturgo e Losey), conquistou grande sucesso crítico e comercial, consagrando também Bogarde como um dos maiores actores britânicos da sua geração.

Acidente (Accident), de 1967


Stephen (Dirk Bogarde) é um professor de meia-idade na Universidade de Oxford, insatisfeito com o seu casamento e com a sua carreira. Movido pela inveja, entra em guerra com Charley (Stanley Baker), o seu amigo galanteador e rival académico, e com William (Michael York), o jovem noivo de Anna (Jacqueline Sassard), uma estudante enigmática por quem se apaixona. Misterioso, subversivo e absolutamente fascinante, Acidente, um dos melhores filmes de Losey, é dominado por uma tensão que fervilha nos espaços que as palavras silenciam, muito ao estilo de Harold Pinter, que tem aqui um dos seus melhores guiões, que o realizador qualificou como obra-prima.

Mr. Kein - Um Homem na Sombra (Mr. Klein), de 1976

O primeiro filme francês de Joseph Losey é, segundo o realizador, “uma fábula em forma de aviso”. Klein (Alain Delon, num dos seus melhores papéis) é um negociante de arte oportunista, que se aproveita da ocupação nazi em França comprando ao desbarato peças preciosas aos judeus em fuga, até ao momento em que a sua própria identidade é posta em causa, ao ser confrontado com a existência de um “outro” Robert Klein, um judeu procurado pela polícia. Filme que é, também, uma análise do estado policial e uma viagem pelos labirintos da culpa individual e colectiva, pôs o dedo na ferida sobre o que se passou em França durante a presença alemã na Segunda Guerra Mundial. Mr. Klein é um “Sr. Quase-Toda-a-Gente”, que não quer ver, que não quer compreender, “aquele” que tornou possíveis as grandes atrocidades do século XX.

Além do Cinema Nimas, em Lisboa, e do Teatro Campo Alegre, no Porto, o ciclo Rever Joseph Losey, Cineasta Essencial contará com exibições no Cinema Charlot,em Setúbal; no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra; no Theatro Circo de Braga; e no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz.

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