Estreias  

O realismo segundo Michael Haneke

Michael Haneke continua a ser um metódico e intransigente observador das convulsões internas da nossa Europa: "Happy End", presente na secção competitiva de Cannes/2017, é mais um prodigioso exemplo do seu labor.

O realismo segundo Michael Haneke
Toby Jones, Isabelle Huppert, Jean-Louis Trintignant, Fantine Harduin e Mathieu Kassovitz — uma família europeia
Crítica de
Subscrição das suas críticas
155
Trailer/Cartaz/Sinopse:
 O realismo segundo Michael Haneke
Happy End Um retrato da vida de uma família burguesa europeia.
Artigo recomendado:
O realismo segundo Michael Haneke
Cannes 2017
Vida e morte em cenário europeu Já vencedor de duas Palmas de Ouro, Michael Haneke regressa a Cannes com um retrato tão cruel quanto depurado: a partir das convulsões ...

Releio as linhas que escrevi [ver link aqui ao lado] quando "Happy End", de Michael Haneke, passou em Cannes, na secção competitiva de 2017. E, embora reconhecendo que se tratava de um objecto não susceptível de gerar consensos (ainda bem...), confesso que não esperaria que sobre ele se abatesse um tão grande silêncio — para não dizer indiferença.

De tal modo que "Happy End" se tornou um objecto ausente de todos os balanços europeus de 2017, como se o facto de pensar a Europa para além de lugares-comuns ideológicos ou banalidades dramáticas justificasse uma espécie de punição simbólica... Enfim, digamos apenas que o filme chega ao mercado português mais de um ano depois da sua revelação em Cannes e que isso não o impede de ser um invulgar acontecimento.

Que Europa? Pois bem, uma entidade que emerge da perturbação que se instala numa família do norte de França face os refugiados que foram acolhidos na região de Calais (no campo, entretanto desmantelado, que ficou conhecido como a 'Selva'). O que Haneke filma não é o confronto, ainda menos a comunicação, entre os dois universos, antes a sua coexistência num presente carregado de contradições e interrogações.

Deparamos, afinal, com a mesma precisão realista de títulos anteriores de Haneke, em particular aqueles que lhe valeram duas Palmas de Ouro em Cannes: "O Laço Branco" (2009) e "Amor" (2012). O realismo, entenda-se, não é a acumulação de sinais superficiais, à maneira da mais rotineira informação televisiva — é, isso sim, um trabalho intenso e obsessivo sobre os elementos do quotidiano que dizem mais do que as suas aparências.

Como sempre, isso é conseguido através de um elaborado e complexo trabalho com os actores, também eles superando os códigos comuns de representação "psicológica". Destaquemos Isabelle Huppert, Jean-Louis Trintignant, Toby Jones e Mathieu Kassovitz. E sublinhemos, em particular, a presença radical de Fantine Harduin — no cinema de Haneke, também as crianças não são estereótipos.

  • O realismo segundo Michael Haneke
    Cinema Europeu
    Haneke, o príncipe das Asturias
    Michael Haneke soma uma prestigiada distinção à Palma de Ouro, ao Oscar de filme estrangeiro e ao prémio de melhor filme europeu.
Crítica de João Lopes
publicado 19:52 - 28 julho '18

Recomendamos: Veja mais Críticas de João Lopes