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Os laços sociais sob o efeito do álcool

Distinguido com o Óscar de melhor filme internacional, "Mais uma Rodada" retoma, em tom menor, alguns elementos temáticos e dramáticos da obra anterior de Thomas Vinterberg, em especial de "A Festa".

Os laços sociais sob o efeito do álcool
Mads Mikkelsen: actor de novo em destaque no cinema de Thomas Vinterberg
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 Os laços sociais sob o efeito do álcool
Mais Uma Rodada Existe a teoria que o ser humano devia nascer com uma pequena quantidade de álcool no sangue e que a embriaguez moderada abre as mentes para o mundo ao nosso redor, diminuindo os problemas e aumentando a criatividade. Atentos a esta teoria, Martin e três dos seus amigos, professores cansados do ensino secundário, embarcam numa experiência para manter um nível constante de intoxicação durante o ...

Mesmo sem especial entusiasmo pelo labor especificamente cinematográfico de um filme como "Mais uma Rodada", de Thomas Vinterberg, é forçoso reconhecer-lhe a intensidade de um muito básico desencanto. Dito de outro modo: este não é exactamente um filme sobre o "tema" do alcoolismo, antes uma constatação da existência de uma verdadeira cultura do álcool.

Na verdade, o retrato do professor Martin (Mads Mikkelsen, apenas a gerir a irrecusável imponência da sua figura) não é exactamente a saga de "um" homem dependente do álcool, antes o sintoma de um modo de consumo realmente transversal — entre gerações e diferentes lugares sociais. Nesta perspectiva, "Mais uma Rodada" poderá ser definido como (mais) uma variação sobre aquele que me parece continuar a ser o título mais consistente da filmografia de Vinterberg: "A Festa" (1998).

Por um lado, há em Vinterberg uma agilidade visual que já se transformou num efeito de assinatura: trata-se de filmar como se se estivesse "apenas" a registar o jogo de improvisos dos actores (o que, entenda-se, não deixa de gerar momentos interessantes). Por outro lado, a "mensagem" das suas narrativas tornou-se um cliché: em última instância, a deriva individual é apenas a expressão das ilusões do colectivo.

Um conto moral, enfim: o cepticismo de um filme como "Mais uma Rodada" funciona como espelho ambíguo de um tempo (o nosso, obviamente) em que nos satisfazemos com a contemplação catártica daquilo, ou daqueles, que "multiplicam" os equívocos e limites dos nossos laços sociais. Nesta perspectiva, ao testarem os limites da sua própria resistência ao álcool, Martin e os outros professores, seus colegas, funcionam como simulacros da nossa descrença no colectivo — mesmo tocando em alguma verdade, o cinema que os encena parece igualmente iludido pela sua própria vertigem.

Crítica de João Lopes
publicado 23:24 - 29 abril '21

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