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Para além do drama de guerra

Realizado por Samuel Maoz, o cineasta de "Líbano" (2009), "Foxtrot" é uma admirável reflexão sobre as tensões interiores da sociedade israelita — um drama de guerra capaz de problematizar a própria ideia de comunidade que une as personagens.

Para além do drama de guerra
"Foxtrot" — um filme que questiona os laços que (des)unem as suas personagens
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 Para além do drama de guerra
Foxtrot Um mero bater à porta leva um homem e a sua mulher a um sofrimento incomensurável, surpreendidos com a notícia da morte do seu filho, um soldado.

Dir-se-ia que podemos definir "Foxtrot" como um drama de guerra. E não há dúvida que é nesse registo que começa o filme assinado por Samuel Maoz: um casal recebe a notícia de que o seu filho, um soldado do exército israelita, morreu em combate... A partir daí, somos confrontados com um ziguezague de acontecimentos e perplexidades que nos leva a perguntar que laços unem aquelas personagens, como funciona a própria ideia de comunidade que os une.

Vale a pena recordar que a primeira longa-metragem de Maoz, "Líbano" (2009), já lidava com questões em tudo e por tudo semelhantes. Aí, tratava-se de evocar a experiência dos soldados de um tanque durante os conflitos no Líbano, em 1982. Tal como em "Foxtrot", ia-se instalando a mesma interrogação visceral, de uma só vez física e simbólica: a que lugar pertencem as próprias acções que vamos seguindo?

Nada disto, entenda-se, é abstracto. E não será necessário sublinhar um facto rudimentar, mas essencial: "Foxtrot" coloca em cena um universo instável, todo ele pontuado pelas tensões entre israelitas e palestinianos, a ponto de o concreto dos comportamentos envolver a dificuldade de formulação política dos próprios problemas em jogo.

A tragédia existencial que liga pai, mãe e filho não nasce de outra coisa: que está a acontecer através das mortes, dos "nossos" e dos "outros"? Ou ainda: que projecto de paz pode nascer desta conjuntura bélica?

Criticado pelo ministério da Cultura de Israel pela visão pouco ortodoxa do papel do exército, Maoz não recusou reconhecer que o seu filme está longe de ser um retrato "oficial" do que quer que seja, lembrando, porém, que nele se inscreve também um profundo amor pelo seu país — não haveria maneira mais justa de sublinhar a energia humana, e também a obstinação humanista, de "Foxtrot".

Crítica de João Lopes actualizado às 23:49 - 07 junho '19
publicado 23:44 - 07 junho '19

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